COBRA PAGES:

 


COBRA PAGES
e seus objetivos
JMJ

reg.

Filosofia   Comportamento   Boas Maneiras e Etiqueta   Teatro Pedagógico   Contos   Restauro   Genealogia   Biografias  

 

Perguntas
mais freqüentes

Quem somos

Hoje:

 

Padre Fidelim e o Viagra

NOVIDADES DO SITE

CONTACTO        Busca no Site

 

Página escrita por Rubem Queiroz Cobra
Site original: www.cobra.pages.nom.br

 

Na primeira década do terceiro milênio, a sede do município ainda era uma cidade pobre, e seria totalmente desprovida dos bens da modernidade, não contasse com o alcance da internet. De suas ruas sem pavimentação levantava-se uma poeira branca asfixiante; o esgoto corria para o rio em valetas ou se acumulava em poças fétidas. À noite, a luz dependia de um motor de giro variável, que fazia a iluminação das casas oscilar entre fraca e forte a todo momento. O abastecimento de água dependia de uma pequena fonte e, havendo seca, de caminhões-pipa. Porém, um fato importante garantia o movimento do comércio e as visitas de gente rica e ilustre. Três  senadores da República que o povo chamava "Coronéis" – títulos herdados dos avós, Coronéis da Guarda Nacional –, moravam com suas famílias em fazendas nas redondezas. Quando lá estavam de férias ou nos fins de semana, havia romarias de cabos eleitorais, de eleitores que eram seus afilhados e seus compadres, e de autoridades e políticos locais,  todos em busca de algum favor. Os três eram inimigos entre si – a ponto de assassinarem parentes da família rival. Mas quando chegaram desta vez,  para passar em suas fazendas as férias parlamentares, surpreenderam a todos por retornarem de Brasília como três amigos inseparáveis. A qualquer lugar que fossem, os três iam juntos.

Intrigado com esse fato, o delegado passou a observá-los aparecendo como  que casualmente onde pudesse encontrá-los; e eles, por sua vez, haviam combinado tratar o delegado sempre com mostras de grande apreço.

—Qual a sua opinião? – perguntou o delegado ao farmacêutico, um espanhol muito estimado pelos moradores. – Eu os tenho observado, e não parecem tão amigos assim, que não pudessem dispensar esse chamego de estarem sempre juntos. Da última vez que vieram em férias, cada um evitava encontrar qualquer dos outros dois. Começo a suspeitar que se juntaram pela necessidade de se vigiarem, para que nenhum deles faça algo que revele algum crime que cometeram...   

—Ah... Si... Si! – concordou o espanhol.

À tarde, os coronéis senadores vinham de suas fazendas para a cidade, em seus  luxuosos automóveis adquiridos naquele período legislativo para substituírem suas modestas charretes, e faziam uma rápida parada na farmácia, fosse para adquirir algum artigo ou remédio, fosse para saber quem andava doente na cidade. Depois seguiam para a cantina do grego Teócrito, para jantar comidas gregas afrodisíacas preparadas por Dona Perséfone, e tomar vinho branco de uvas cultivadas no solo vulcânico de Santorini. Seguiam depois para o Cabaré do padre Segretti, onde se encontravam com suas damas favoritas e bebiam até a madrugada.

Aquela vez o farmacêutico tinha uma novidade da qual falar, mas esperava que outros parceiros costumeiros daquelas horas de conversa aparecessem. Após a chegada do delegado, ele anunciou. "—Já tenho o Viagra para vender. Deixei bem visível na prateleira, para o caso de alguém se interessar. E para ninguém ficar constrangido de vir à farmácia – completou sorrindo com seus grandes dentes desalinhados e escurecidos pela nódoa dos cigarros –, meu filho irá entregar, onde for combinado. – por falta de tato, enquanto falava o farmacêutico parecia dirigir-se aos senadores.

 Ouviu-se o riso baixinho de alguns matutos que haviam se juntado na  porta da farmácia, curiosos em ver os coronéis e escutar o que falavam. Isto sempre lhes rendia algum motivo para fuxicos. Porém, um olhar do delegado fez com que se dispersassem. Mas o riso dos rapazes parece que desconcertou os senadores. Achando que cometera um erro em falar do estimulante, o farmacêutico apressou-se em buscar a garrafa do Xerez que sempre oferecia àqueles ilustres visitantes. Recusaram.

Na cantina do Grego jantaram em silêncio. Porém, logo desinibidos pelo vinho, em dado momento admitiram que, aquilo que desejavam mesmo era conversar sobre o Viagra, e entre eles criou-se a expectativa  de qual tocaria primeiro no assunto. Nem perceberam que o delegado havia chegado e tomava uma cerveja em uma mesa próxima à deles.

 —Não creio que o espanhol venda as pílulas mandando entregá-las na casa do comprador – disse o Coronel Malvindo. —O garoto irá dizer aos amiguinhos em quais endereços entregou a droga, ou o próprio farmacêutico fará política com a questão, se tiver oportunidade.  

Segredo de pedra sobre o assunto, somente um padre faria, porque ele é obrigado a guardar os segredos da confissão. E não fazem moca de ninguém – disse o Coronel Santinho..

Mas, e a coragem para pedir isso ao vigário padre Fidelim Bonato? Quem teria? O Coronel Santinho se ofereceu. Achava que o sacerdote tinha simpatia por ele, apesar de que sempre fazia promessas falsas a respeito da ajuda para a construção de um salão paroquial para festas, que o padre desejava muito. "Talvez, se voltasse a lhe prometer a sonhada verba, sugerindo que, em troca, adquirisse o produto na farmácia, ele aceitasse a barganha" – pensou o Coronel Senador.

Tal como esperava, o Coronel Santinho recebeu do sacerdote as três cartelas de Viagra e mais o troco do dinheiro dado para a compra. Convocou os dois colegas a se encontrarem com ele na praça e lá, à sombra de uma árvore, fez a entrega das cartelas do remédio. O Coronel Malvindo fez um remarque: “Não preciso de nenhuma droga!... Simples curiosidade!" –, mas estava visivelmente ansioso.   

Sempre o mais afoito, o Coronel Malvindo pegou a sua cartela e deu as costas aos dois colegas, e partiu com grande pressa rumo à casa de sua amante. Pelo caminho foi ingerindo em seco as quatro pílulas azuis da cartela. Chegou suado à casa da mulher e plenamente preparado para exibir todo o seu poder, preciosa dádiva da deusa Eros. A amante  mal escondeu seu aborrecimento com a visita – ainda não era sequer meio dia.

Ao final trágico, já havia anoitecido. O problema surgiu quando o Coronel, extenuado, não conseguiu desfazer-se dos efeitos extraordinários da droga que tomara em excesso. Começou a preocupar-se, e alarmou-se quando começou a sentir dores pelo corpo.  Apesar de ser noite, a mulher, que até ali não entendera o que acontecia, vestiu-se e foi chamar a parteira, mulher do farmacêutico. Entre dores e contorções, o Coronel suplicou que o levassem logo para o hospital na Capital.

Demoraram a trazê-lo... Muito tarde para operar – disse o médico. —O remédio será uma prótese.

O Coronel Malvindo lembrou-se de que, se não tivesse desviado a verba orçamentária federal destinada à construção do hospital municipal, teria sido socorrido com rapidez, perto de casa. 

O filho do farmacêutico vira o padre comprar a droga afrodisíaca na farmácia e contou para os outros meninos da escola. Em poucas horas espalhou-se a história de que o padre usava Viagra.  Essa notícia causou indignação na comunidade. O povo já sabia que Belinha, a cuidadora da casa paroquial, tinha um namorado, e que se encontravam à noite, atrás da igreja. Se o padre comprava Viagra, era porque ele também desfrutava dos carinhos de sua empregada, que dormia com ele sob o mesmo teto. Um grupo de moleques, por simples diversão e gozo da maldade, se juntara frente à Igreja e, aos gritos, hostilizava o vigário com apupos e xingamentos. Muitos curiosos, que se compraziam em observar a sanha dos garotos, contribuíram para formar uma pequena multidão ululante.

Ao buscar passagem, o Coronel Santinho mandou o chofer deixar de buzinar e parar o carro, e desceu para dirigir-se ao povo, do alto da escadaria da igreja. Com um discurso pacificador, tentou apaziguar os moleques, que jogavam pedras nos vitrais. Porém, um adolescente mais exaltado pegou no chão de terra a metade de um tijolo e arremessou-a  certeira contra a cabeça do orador.

Quando o Coronel Santinho voltou a si no hospital da Capital, soube do médico que ficaria internado alguns dias, em observação. Depois tentariam trazer o osso quebrado à sua posição, para eliminar o pequeno afundamento sofrido com a pancada.

Ao saber do fato, o vigário pensou que era um bom momento para lembrar ao Coronel sua promessa, nunca cumprida, mas agora renovada, de obter verba para o pavilhão paroquial, onde pretendia acolher os jovens. "Menores que não têm o que fazer estão em aumento. Esse que acertou o senador com o pedaço de tijolo não faria isso se tivesse nas mãos um livro para ler...". Foi no seu jipe até a Capital, mas perdeu a viagem: havia um número grande de políticos e de amigos a visitar o ferido e o corredor estava intransitável, devido ao número de pessoas esperando a vez de entrar para vê-lo.

O Coronel Heitor desejava ocultar da esposa o uso do estimulante, de modo a fazê-la acreditar que o seu vigor masculino fosse natural. Esperou a noite e se preparou para surpreende-la. Porém, para seu grande constrangimento, sua esposa o repeliu e se pôs a chorar, em franco desespero. Motivado como estava, tentou forçá-la grosseiramente. Ela reagiu mordendo-lhe a orelha, e a dor e o sangue o dissuadiram da tentativa.

—Eu não quero mais isso. Já passei da idade. Peço que não me incomode mais. Por que Deus fez a mulher diferente do homem? – lamentou, enquanto enxugava os olhos com a manga da camisola e procurava dominar os soluços, e se controlar.

Multiplicaram-se na cidade as reuniões para discutir como agir com o padre obsceno. Finalmente os homens de bem decidiram que contratariam dois ou três ônibus aos domingos, para que os paroquianos fossem assistir missa na igreja de um distrito próximo. Foi decidido também que os presidentes das irmandades enviariam uma carta ao bispo denunciando o comportamento do pároco.

O bispo chamou o padre ao palácio da Diocese na Capital, para se explicar diante dele e do  representante da Congregação para a Doutrina da Fé – este ditaria a pena, se houvesse castigo a aplicar. Mas era tão claro que o vigário não fizera nada errado que ele não recebeu nenhuma reprimenda.

—E o que posso fazer?– perguntou o bispo. —Se os fieis não se reconciliarem com o senhor  em um mês, terei que solicitar sua transferência... Gostaria de ir para a Bahia?

Isto o Padre não desejava. A igreja vazia feria seus sentimentos, mas acreditava que em pouco tempo o povo reconheceria sua retidão, e então o templo voltaria a se encher de fieis, como antes – mas sentia-se a beira do pânico. Ocorreu-lhe então a lembrança de um amigo, bom e inteligente, e que fora seu colega de ordenação sacerdotal, o padre Segretti. Decidiu ir visitá-lo na paróquia de São Francisco, a duas horas de trem da sede do município, expor-lhe a situação em que estava, e pedir-lhe conselhos. À noite, foi à estação pegar o trem noturno. Recomendou a Belinha que fechasse bem as portas e fosse para sua casa, até que ele voltasse. Esperava estar de volta no  dia seguinte.

Pelo caminho de seixos rolados, caminhou entre as fagulhas que as pedrinhas que chutava produziam. Viu o Agente de pé na plataforma às escuras. A única claridade vinha da lanterna de querosene pendurada em sua mão, que iluminava o chão e suas calças de brim cor beije, e criava sombras em seu rosto.

O pároco foi recebido pelo agente com mostras de atenção e respeito que ele não esperava: “Finge não saber dos boatos” pensou o padre. O agente informou-o de que o trem sofrera um descarrilamento –o que era comum acontecer – e passaria rumo ao norte com muito atraso. As lâmpadas da plataforma reacenderam, num espasmo de luz, para logo voltarem à sua incerta e habitual oscilação.

O Padre Fidelim resolveu ariscar-se na estrada usando o seu jipe, presente que lhe dera a comunidade, vinte anos atrás. O jipe descansava debaixo da casa, ao lado da escada para a porta da cozinha. A porta estava aberta, e ouviu murmúrios de carinho e gritinhos de excitação vindos do quarto da Belinha. Havia um homem no quarto com ela. O padre teve um ímpeto de expulsa-la da casa naquele mesmo instante, mas controlou sua raiva. Silenciosamente caminhou para o seu quarto e abriu com cautela sua porta, aproveitando cada grito de prazer da mulher para fazer ranger a porta sem que o ruído fosse ouvido pelos amantes. Apanhou na gaveta da cômoda a chave e os documentos do veículo e saiu silenciosamente. Tomando assento ao volante, soltou o freio do carro que deslizou  para a beira do córrego do qual era bombeada água para a casa paroquial. Somente ligou o motor quando já havia se afastado da casa.

Já era manhã, quando apareceram uns casebres entre o barranco e a estrada. Um pau roliço, com os extremos apoiados em forquilhas fincadas uma de cada lado da estrada, impedia a passagem de veículos. Em cada lado daquela barreira improvisada havia um índio de cor parda, peitos e rostos imberbes, usando chinelos e calças jeans,  portando arco e flecha. Outro, de mais altura e músculos, com uma pena de arara espetada em uma tira vermelha presa ao redor da cabeça, veio a passos lentos, com a elegância de uma autoridade, e disse ao Padre: “Cinquenta Reais para passar”.

Com o rosto mostrando seu aborrecimento, o padre passou os olhos pela redondeza, ao mesmo tempo que se perguntava quem poderia ter direito a cobrar pedágio naquela estradinha apenas carroçável. Mas havia um barranco de um lado e uma grota de pedras afiadas, do outro. Provavelmente o mais cômodo seria pagar o pedágio e continuar viagem.

—Dispensa-me de pagar essa taxa. Só tenho dinheiro para a gasolina de volta – disse o Padre.

—Quem pensa que é? Todos que passam pagam, inclusive os Coronéis, quando vêem aqui farrear com as mulheres. É também isso que o senhor quer?

—Vou encontrar um amigo na cidade, que é padre como eu. É o pároco de São Francisco de Paula.

As feições duras do índio, marcadas por alguns vincos profundos e escuros como se ele já tivesse nascido pintado para a guerra, suavizaram um pouco.

—Bem, se quer encontrar o Dom Segretti, não precisa passar pela barreira e ir adiante. Deixe o jipe aqui. Aquela mulher mora com ele. Acompanha a mulher.

Dito isto o índio  deu as costas  ao padre e caminhou com a mesma dignidade da vinda, de volta à sombra onde estivera antes. O padre, atônito com que o ouvira, acompanhou-o com os olhos, antes de descer do jipe.

Uma índia de pele azeitonada, cabelos longos e negros, levava uma bandeja suspensa na mão direita espalmada à altura do ombro. Certamente o paninho branco sobre a bandeja escondia algum quitute para o café da manhã. Ela ouvira o que o índio dissera ao padre e retardou um pouco os passos, até que passaram a caminhar juntos. Vestia com desmazelo um vestido de chita que não estava acostumada a usar, e não lhe ocultava um dos seios.

Um crioulinho pequeno e magrinho subiu o morro correndo para avisar o Dom Segretti de que um amigo seu, com colarinho branco na camisa, estava subindo o morro para vê-lo. Este, curioso, saiu para a varanda, de onde podia ver parte do caminho. Reconheceu o amigo ainda longe, e seus olhos se encheram de lágrimas. Era Fidelim, um colega que permanecera fiel e vivia naquele mundo místico e fascinante da Fé! Ele, ao contrário, saíra daquele universo seguro e maravilhoso por uma porta que se abria para o vazio.

A mesa do café da manhã estava posta, apenas aguardando o pão que a índia agora, com uma das mãos, colocava com cuidado em uma cesta, diante deles, enquanto com a outra tentava endireitar o vestido sobre o ombro.

Ambos queriam saber as razões que tinha o outro para estarem ali no alto daquela colina. Padre Segretti achou que devia falar primeiro. Confessou ao amigo que  não acreditava mais na Igreja, e que havia abandonado o sacerdócio. Não estava ali passando férias  como poderia parecer, mas era o dono do negócio montado naquele ponto da estrada, que além da barreira do     pedágio, contava com uma grande e bem construída boate, para além das casas, à qual acorriam os homens ricos das vizinhanças, para encontros ocultos com mulheres, e bebedeiras.

Gosto de ser chamado "Dom Segretti". Pode me chamar assim, sem qualquer receio.

Enquanto o ex-padre falava, moças índias se juntavam à janela. A claridade que entrava por cima de suas cabeças impedia o padre Fidelim de ver com nitidez os seus rostos.

Para evitar que o amigo demonstrasse seu pesar, ou tentasse fazê-lo reconciliar-se com a Fé, o ex-padre obrigou-o logo a falar sobre os motivos da viagem que fazia, e ficou lisonjeado com o que ouviu.

Saí a sua procura, disse o sacerdote. —Precisava de conselhos de alguém, e me lembrei  de  quanto você é inteligente e amigo. Queria partilhar com você um segredo de confissão, para tornar menos pesado para mim resguardá-lo. O padre Fidelim contou tudo que aconteceu em conseqüência de haver atendido ao pedido de um paroquiano para comprar o medicamento afrodisíaco. Ele ponderou que ele e dois amigos seus eram homens públicos e não podiam se expor a serem ridicularizados por seus eleitores...

—Já sei quem são! - bradou o Dom Segretti, triunfante. —São os "Tres pinos", os três Coronéis senadores! Quando passam as férias nas suas fazendas, vêm aqui quase todas as noites beber e furnicar na minha boate. Andam muito felizes e estão muito ricos.

Porque os chama "os três pinos"?

—Em uma noite de bebedeira, na vez passada em que vieram, os três senadores, em meio a muito riso e uísque, cada um com uma prostituta seminua no colo, e totalmente bêbados, o mais falante deles disse que eu, querendo ou não, seria sempre padre,  e estava obrigado a guardar segredo. Confiaram-me que eram os pais da nova tomada elétrica de três pinos. Para ligar seus aparelhos elétricos, o povo teria que comprar novos adaptadores. Ficou proibida a tomada mista que as casas brasileiras tinham nas paredes, que aceitava na mesma peça tanto os pinos chatos americanos os do meu barbeador , quanto o tipo  redondo, brasileiro e europeu. O Coronel Heitor foi encarregado de convencer os industriais; o Coronel Santinho arquitetou e executou toda a burocracia, nacional e internacional, para fazer obrigatórias as mudanças na linha de produção. O Coronel Malvino encarregou-se da propaganda enganosa para convencer o povo. Foram tirados do comércio os modelos antigos. De nada adiantou a população reclamar. O lucro com o golpe foi  incalculável, o que valeu propinas de valores fenomenais, pagas secretamente pelas indústrias aos políticos. Não houve uma única casa ou apartamento no Brasil na qual não tivesse entrado pelo menos um dos novos adaptadores. Todo mundo tem ferro elétrico de passar roupa, não é?

Nunca foram bons com a população. Já me prometeram ajuda  para a construção de um galpão para festas, teatro, reuniões de grupos, conferências, e nunca consegui um centavo deles. O dinheiro que recebem para saneamento se evapora e o esgoto continua a correr nas ruas lamentou o sacerdote.

—Eles disseram que contam com os juízes "papa capim", "caladinho" e "macarrão da Santa Casa" para votarem incondicionalmente a seu favor, e isto lhes garante impunidade. Mas não ficarão impunes entre seus eleitores, se o povo souber que eles são ladrões, e suas esposas e seus filhos haverão de castigá-los, quando souberem que frequentam a minha boate. Vou chantageá-los! Você vai ganhar o seu salão de festas e a cidade terá esgoto encanado e ruas limpas. Pode acreditar!

Como dentro da casa estivesse muito quente, após o almoço simples que a índia preparou, saíram para a varanda, onde nunca faltava um pouco de vento, ainda que trouxesse um ar morno. De lá a vista abrangia o horizonte longínquo de céu azul, além dos campos e das colinas rochosas das redondezas, cobertas de mato ressecado.

O ex-padre Segretti não lhe dava oportunidade de falar. Contava episódios engraçados ocorridos na boate quando uma autoridade bebia demais, ou o que aconteceu quando um ricaço veio para o cabaré com a mulher de um amigo, e lá chegado, encontrou sua  própria mulher com esse amigo traído. O sacerdote ouvia aquelas histórias cômicas sorrindo por polidez,  e na esperança de que pudesse dar à conversa o rumo que desejava, que era inteirar-se dos motivos do amigo viver aquele tipo de vida torpe, vergonhoso para qualquer cidadão, principalmente tratando-se de um ex-padre. Mas Dom Segretti o deixou, para ir acompanhar os aprestos para o atendimento aos clientes na boate, aquela noite.

Na manhã do dia seguinte foi acordado pelo chamado em voz alta. —Venha tomar café! gritou-lhe Dom Segretti.

—Ainda vou rezar para Maria, Mãe de Jesus. Recomendei você a ela. Tenha a humildade de esperar um pouco, e verá o que vai acontecer. Você precisa se confessar para  livrar-se de seus pecados!

—Ora, meu caro! Se me livrar dos meus pecados, perco minha identidade disse rindo Dom Segretti.

À mesa do café os dois sorveram com gosto o delicioso café preparado pela índia. Seguro de suas teses, Dom Segretti logo voltou a falar. Disse, para provocar o amigo:

Vocês, católicos, adoram Maria. Mas Maria não criou o céu e a terra. Eu não a colocaria no lugar de Deus!

—Ninguém coloca – disse o Padre Fidelim. —Ha que distinguir entre “adorar” e “venerar”. Você venera sua própria mãe, não?

Dom Segretti não respondeu. Comeram algumas frutas em silêncio. Então ele objetou, com mal disfarçado ressentimento:

—  Como eu poderia continuar padre se não tinha mais nenhuma crença na Eucaristia? O tom de ressentimento em sua voz não passou despercebido ao sacerdote. Pareceu-lhe que, se Dom Segretti voltasse a crer no mistério da Eucaristia, retomaria a batina. Isto lhe dava esperanças. Achou que poderia começar logo a re-instruí-lo naquele dogma fundamental.  

—Cristo quis continuar na terra com os homens. Você sabe disso. Ele não é como os profetas que morreram e apenas passaram para as páginas da Bíblia. Na última ceia ele disse aos apóstolos que ficaria com os homens até o final dos tempos, e que o pão e o vinho que lhes dava eram verdadeiramente o seu corpo e o seu sangue.

Dom Segretti curvou-se sobre o pão que depositara em seu prato e disse as palavras da Consagração, sem que o sacerdote tivesse tempo de impedi-lo,

—Consagrei esse pão e vou comê-lo, anunciou. Depois gritou para a índia: Traga a manteiga, que não quero comer pão seco.

Escandalizado, vendo que a intenção do amigo era cometer um grave sacrilégio, o sacerdote tomou-lhe o pão com violência e raiva, e gritou-lhe: —“Você é ainda pior que um filho do capeta”

A índia apareceu por causa dos gritos que escutou. Viu o sacerdote enrolar respeitosamente o pão consagrado no forro que cobria a bandeja, e ajoelhar-se para uma breve adoração.

—Você vai caminhar atrás de mim até a porteira – ordenou-lhe o Padre Fidelim. —Chame quem estiver aqui trabalhando, e vamos levar Cristo em procissão até o meu jipe.

Enquanto o grupo caminhava em fila, morro abaixo, alguns índios se juntaram ao cortejo e, chegados frente às casas, alguns outros mais. O sacerdote sentiu que a felicidade tomava o lugar de sua raiva e indignação contra o colega, quando uma índia mais idosa, informada do que havia acontecido, juntou-se ao cortejo para entoar um conhecido hino de louvor ao Santíssimo Sacramento, seguida pelo filho que tocava uma flauta de bambu. Todo o grupo acompanhou-a no canto sacro, e assim prosseguiram até o jipe, onde o sacerdote agradeceu, abençoou a todos, sentou-se, e iniciou sua viagem de volta.

 Do alto do morro, o ex-padre Segretti acompanhou com seu binóculo o que se passava lá em baixo, no vale. Uma tristeza muito grande tirou a vivacidade do seu olhar. Nunca vira uma demonstração de fé tão forte quanto a dada pelo padre Fidelim Bonato. Ele, ao contrário, se reconhecia presunçoso, arrogante, e ao mesmo tempo um debochado. Realmente, aquela vida de baixeza em que caíra lhe parecia, agora, uma inexplicável queda intelectual e moral.

Ao partir, o Padre Fidelim levava consigo o temor de que o modo rude com que havia tratado o amigo ex-padre, depois que praticara o sacrilégio, resultaria em perder a sua ajuda –, Mas isto não aconteceu. Na primeira vez que os Coronéis apareceram na boate, Dom Segretti fez-lhes um discurso que os deixou estupefatos, humilhados e coléricos.  Os três pagaram a conta e saíram do salão, para caminhar um pouco, ao ar fresco da noite, a fim de pemsar, com calma,, o que fazer. Mas, as luzes do letreiro da boate atraiam mariposas de mini-saias, que conversavam em grupos nas proximidades dos barracos de aluguel, esperando pelos trabalhadores das fazendas próximas, seus clientes habituais que chegavam a cavalo ou em superlotadas caminhonetes. Onde acharam que poderiam conversar sem serem ouvidos –  por trás de uma Kombi enferrujada e sem rodas , passaram a discutir o que fazer. O coronel Malvindo, com sua prótese de pele de porco, viera apenas para beber, mas foi ele quem apontou a solução.

—Vamos mandar matar esse padre renegado, e para que ninguém desconfie de nós, vamos aplicar as verbas do saneamento na cidade e mandar construir o salão  paroquial do Padre Fidelim sentenciou o Coronel Malvindo ao final. Decidida a questão, sentiram um alívio que os estimulou a retornar à boate, esquecer as preocupações e farrear pela noite a dentro.

Na manhã seguinte a índia trouxe o pão como de costume. Quando o ex-padre sentou-se, ela o serviu e de pé, junto à mesa, disse-lhe o que ouvira da mulher que morava na Kombi.

—Ela escutou tudo o que os homens disseram os três Coronéis. Disseram que precisam matá-lo porque você sabe muita coisa. O que vai fazer, Dom Segretti?

O ex-padre não se perturbou. Refletiu por alguns segundos.

Não sei. Mas é claro que preciso sair daqui, e encontrar onde me esconder, antes que me armem uma emboscada. Passou ao escritório onde fazia anotações nos seus livros de contabilidade, fechou a porta e se pôs a escrever algumas cartas e a procurar endereços na Internet. Endereçou uma ao bispo da diocese, outra à Polícia Federal, em Brasília, e uma terceira, bem mais longa em cujo envelope escreveu "confidencial" , endereçada ao juiz da 13.ª Vara Criminal Federal de Curitiba. Tirou cópias da correspondência. Guardou para si uma via e chamou a mulher.

  —Preste muita atenção! – pediu ele. Esconda esses envelopes com muita segurança. Se eu não falar com você por telefone até de hoje a 30 dias, vá escondida colocá-los no Correio.

Após uma atividade frenética, ajudado pela mulher, juntando em uma mala o que escolheu levar, chamou um dos índios da casa para acomodar a bagagem na sua Rural Willis, de cor azul clara, estacionada sob uma latada a poucos metros da casa, onde o caminho para subir ainda era menos íngreme. Esperou que anoitecesse e terminasse o movimento na boate.

A índia aproximou-se dele para se despedir. Seu modo de ser carinhosa estava na doçura da voz e em falar baixinho. Nenhum gesto senão aproximar seu corpo, e baixar a voz quase até um sussurro. Nunca tomava a iniciativa de fazer-lhe uma carícia, mas depois que tinha seu assentimento, quase o sufocava. Tinha em uma das mãos um colarinho sacerdotal.

—Padre Fidelim deixou aqui, e disse que era seu – disse ela. —Eu sei que não é, mas... Quer levar com você, Dom Segretti?

—Sim, quero... disse o padre Segretti, com um leve sorriso de incredulidade, ao mesmo tempo agradavelmente surpreso. Abraçou longamente sua companheira e depois desceu a escada para ir até sua Rural, levando pendurado ao ombro seu binóculo, na mão esquerda sua pasta de documentos, e na outra mão a lanterna e o colarinho clerical.

Rubem Queiroz Cobra            

Lançada em 30 de setembro de 2017

Direitos reservados. Para citar este texto da Internet: Cobra, Rubem Q. - Padre Fidelim e o Viagra. COBRA PAGES: www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2017.
("Geocities.com/cobra_pages" é "
Mirror Site" de COBRA.PAGES)

Utilize a barra de rolagem desta janela de texto para ver as NOVIDADES DO SITE
Obrigado por visitar COBRA PAGES