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AS FILHAS ADOTIVAS

por

Rubem Queiroz Cobra

Em 1670 o engenheiro Pierre-Paul Riquet construiu, em território Francês, um canal que permitiu a ligação do Mediterrâneo ao Atlântico: o Canal du Midi, hoje declarado pela UNESCO patrimônio da humanidade.

 

MARTINE

A candidata Martina Valentina – suas colegas francesas a chamavam Martine –, uma jovem italiana que estudava na França, respondeu com determinação para sua orientadora:

— “Ser adotiva significará uma propensão a uma vida criminosa?” Esse é o tema que escolhi para minha tese.

Perplexa, sem nada dizer, a mestra inclinou-se para trás, reduzindo o reflexo do seu jaleco branco sobre o vidro polido da escrivaninha. 

— Sartre... é o que ele deixa transparecer em Saint Genet (pro.: san genê) – esclareceu a aluna. – Talvez  eu até possa provar o contrário: proporcionalmente haverá mais pessoas de valor entre os filhos adotivos que entre os criados por seus pais biológicos.

A mestra ponderou, hesitante em aceitar tal projeto:

― Hoje, os temas de psicologia cognitiva são mais importantes. Não acha arriscado explorar uma área da psicanálise existencial? A banca poderá considerar sua tese um retrocesso.

Porém, reaproximando-se num movimento favorável buscando ser amiga e compreensiva a mestra insinuou de modo intimo e amigo:

 ― O que motivou a escolha, Martine? Alguém que você ama...

A aluna entendeu a reticência da mestra e revelou:

 ― A razão de minha escolha é que também eu sou filha adotiva.

A orientadora assumiu uma posição ereta, como a indicar uma assumida imparcialidade. Mas não tinha como esconder a sua simpatia por sua aluna mais brilhante:

― Tente! Pode dar certo.

E no mesmo tom carinhoso de antes, disse, ao despedir a candidata:

 ― Volte a conversar comigo se sentir que algum conflito pessoal está interferindo nesta escolha.

*

A Diretora do presídio sugeriu-lhe falar com o capelão. Ele tinha acesso aos fichários e era um amigo e confidente da maioria das presas.

Ao padre Justin (justan), Martine disse que desejava entrevistar prisioneiras que fossem filhas adotivas, para saber se essa condição havia influído negativamente em suas vidas. Deixou com ele as feuilles (fêie) de consentement que cada presa deveria assinar, com a declaração de aceitar, com pleno conhecimento e de livre vontade, participar do estudo. Ele pediu um par de dias para escolher os nomes que indicaria.

Quando ela retornou para ter sua resposta, o capelão lhe passou os nomes de apenas três mulheres. Mas o fato de ser um grupo reduzido pareceu a Martine que tinha suas vantagens. Facilitaria seus planos de retirar as presas para um ambiente fora da prisão, para uma conversa em local ameno e livre. O problema mais sério julgou que seria convencer a Diretora a permitir a saída das três, não por uma hora para uma entrevista rápida, mas por uma semana inteira!

― Eu preciso ouvir o Juiz Corregedor – disse a Diretora. – Todas três têm muito bom comportamento, e duas delas já têm permissão para visitar a família no Natal – comentou, examinando demoradamente na tela do computador os nomes selecionados pelo capelão.

O padre deteve Martine por um momento mais.

 ― Pode não ser muito fácil lidar com essas mulheres – disse ele –, apesar de que são poucas. Acho que você deveria ter uma auxiliar experiente... a irmã Dominique. Ela gostaria de colaborar. Conhece as presas; é minha ajudante na Pastoral.

Ante a visível hesitação de Martine, argumentou:

― A Irmã não influirá em nada! Nosso trabalho não é buscar converter as presas... é ajudar, é infundir-lhes paciência, elevar o moral dessas infelizes. Tenho certeza de que irmã Dominique lhe será muito útil. Venha conhecê-la.

Na saleta reservada para a Pastoral católica, Martine viu uma jovem em trajes comuns, e não uma freira com hábito e véu como havia logo imaginado. A irmã levantou-se sorridente de sua mesa de trabalho, encantada com aquela visita. Certamente sabia do assunto que seria tratado, e apresentava sua alegria como sinal de sua disposição para servir.

Ao sair, quando o capelão lhe passou as feuilles (fêie) assinadas pelas mulheres, Martine estranhou que ele tivesse inserido entre elas uma assinada pela irmã Dominique.

*

Logo que lhe foi comunicada a autorização, Martine falou por telefone com Gianluca para o arranjo final de seu plano. Aqui também as coisas correram favoravelmente: baixa estação, pouco turismo, e tempo bom, sem chuvas.

Gianluca era um velho conhecido da sua família, das vezes que ela e seus pais adotivos passavam temporadas de férias nas montanhas do Trentino. Ele era o cheff em um restaurante em Madona de Campiglio, e havia reunido economias suficientes para deixar o emprego e comprar um barco de turismo no Canal du Midi (di midí), um negócio que dirigia com a mulher Louise (luíse). No último verão Martine, junto com algumas colegas, havia experimentado o passeio no barco do casal. Ela não podia pensar um modo mais seguro, tranqüilo e inspirador para o seu trabalho do que conduzir as entrevistas com as detentas no mesmo barco, navegando pelas águas tranqüilas e sombreadas do canal.

*

O Bel-Grosté esperava amarrado ao cais em Marseillan, um pequeno porto de pescadores na lagoa salgada de Thau (tô), separada do Mediterrâneo por uma estreita faixa de terra. A experiência dos hospedeiros conseguiu quebrar o embaraço das moças em poucos instantes. Jorgette pegou todas as sacolas de viagem das companheiras e as distribuiu pelas cabines. O restante da tarde foi empregado em satisfazerem a curiosidade sobre a embarcação, e uma alegre invasão da cozinha onde Louise preparava o que seria o jantar.

O barco a motor, com pouco mais de 30 metros, era um péniche (peníche) confortável, um luxuoso pequeno hotel flutuante. Do convés da proa – equipado com cadeiras de braços laqueadas de branco, para observação do cenário à frente –, descia-se por alguns degraus para a sala de refeições. Com paredes revestidas em mogno, o pequeno salão tinha ao centro uma mesa de jantar em que se sentariam dez pessoas, com dois sofás à entrada, junto a um bar com pia de porcelana e balcão. No convés da popa havia várias chaises longues (chése long) para se tomar sol, e uma mesa para refeições ao ar livre sombreada por um grande guarda-sol. Removendo-se parte do assoalho por um sistema automático, descobria-se uma pequena piscina que era cheia no verão. As cabines eram espaçosas, com dois leitos arranjadas em forma de “L”, um pequeno guarda-roupa, um banheiro com um box de chuveiro, e ar condicionado.

Uma vez que a viagem não teria a parte turística, Gianluca havia dispensado a sua guia turística e deixado na garagem a van que era utilizada para os passeios em terra e no apoio à navegação.

Sentados à mesa sob o guarda-sol, Martine estabeleceu com Gianluca – e anotou em sua agenda –, os locais de pernoite e os pontos no canal onde a embarcação se deteria para que ela fizesse as entrevistas. Desejava fazê-las livre do ruído do motor e sem que as detentas se distraíssem com os outros barcos ou com o cenário variado em cada margem, se estivessem em movimento. O projeto teria sido impossível nas ferias de verão.

*

O jantar à noite, servido no salão do barco, foi pura diversão, um alívio para a tensão que a novidade dos fatos havia criado desde a saída da prisão em Montpellier (monpeliê). Para divertir a si e às companheiras, Olga fingia-se inspetora prisional, e Henriette imitava os modos e a voz da Diretora. Não muito tarde, Martine encaminhou-as para as suas cabines, lembrando-lhes que no dia seguinte começariam as entrevistas. Jorgette prometeu-lhe que bateria à sua porta, para acordá-la na hora combinada com Gianluca para o café da manhã.

Antes de se recolher, Martine utilizou seu telefone celular para dar notícias aos seus pais adotivos do desenvolvimento de seus planos.

Demorou a dormir, recordando sua infância. A primeira conversa sobre sua condição de adotiva a deixara triste, mas com um  sentimento de segurança, e de ser querida. Disseram-lhe que seus pais biológicos a haviam entregado às freiras porque, por algum motivo, não poderiam criá-la, e que ela poderia se informar com as religiosas sobre isso, quando ficasse mais crescida. Quanto a eles, queriam ter uma criança para educar e amar e se comprometeram perante o juiz a educá-la o melhor que pudessem.

― Meu pai e minha mãe voltarão? – havia perguntado.

― Podem um dia voltar, talvez... E se isso acontecer você poderá dividir o tempo entre nós: passar uns dias com eles, uns dias conosco. Eles gostarão de você o bastante para que você fique livre e possa amá-los com liberdade.

Mas, quem seriam eles? – se perguntava. Ela sabia que crianças adotadas fantasiam a respeito dos pais biológicos e a sua fantasia foi de que eram amantes e passavam as férias em Cortina d'Ampezzo, como faziam vários amigos de seu pai adotivo. Eles a teriam deixado na porta do orfanato para evitarem problemas insolúveis de herança com seus filhos legítimos já adultos – imaginava.

Seu sono foi agitado. Teve sonhos confusos recordando as férias de verão em Madona de Campiglio, a brincar com as amiguinhas no jardim da mansão de seus pais ao final da Via Castelletto. Tinha no sonho um temor de estar fazendo algo indevido e arriscado, vendo-se ainda criança a desobedecer a ordem de não sair de casa nos dias em que a cidade estava muito cheia de turistas. Apesar dessa proibição, várias vezes escapara com as amigas para ir comprar guloseimas na Casa del Cioccolato, na praça Righi, um dos locais mais concorridos e onde podia ver grande quantidade de gente passeando em grupos, jovens suecos e alemães sentados ao sol, no chão e nos bancos, ou às mesas na esplanada do Caffè Suisse, conversando animadamente, fotografando, ou comendo sanduíches e bebendo em latinhas.

As imagens do verão, carregadas de ansiedade, alternavam-se com outras, das férias de inverno, quando a cidade era outra e inteiramente sua, e abundavam momentos de felicidade. As altas montanhas, os telhados, as ruas e os gramados cobertos de neve, o campeonato de esqui; as funivias cheias de esquiadores, homens e mulheres com seus óculos escuros, o rosto quase desaparecendo em seus dispendiosos, muito estufados e coloridos agasalhos de frio, em cada estação com maravilhosos e surpreendentes novos modelos; os hotéis e restaurantes lotados com a nata da aristocracia de todo o mundo, e as alegres reuniões na mansão com os amigos de seus pais, em que ela era acarinhada por todos com elogios à sua inteligência e simpatia. Teria uma filha biológica sido mais amada do que ela, uma adotada?

 IRMÃ DOMINIQUE

Pela manhã a prestativa Jorgette bateu à porta de sua cabine, conforme se prontificara a fazer na noite anterior, coisa que Martine agora se felicitava por haver aceito: teria acordado demasiado tarde, depois da noite mal dormida. Porém, como as batidas persistissem, Martine atendeu à porta.

― Encontrei o seu telefone celular e sua agenda sobre a mesa do jantar – disse Jorgette. Com um sorriso meigo, entregou os objetos, mostrando-se feliz com o obséquio que fazia. Martine agradeceu, um tanto surpresa com seu descuido. Mas sua surpresa aumentou ao verificar que alguém entrara na cabine e abrira sua frasqueira; levara um dos frascos de perfume, deixando outro aberto. Certamente a mesma pessoa apanhara o seu telefone e também – ela não suspeitava para quê – a sua agenda, e os deixara depois na mesa da sala. Só poderia ter sido uma das detentas! Mas qual delas? Precisava, com urgência, ler a ficha prisional de cada uma.

*

Após o café, enquanto o barco permanecia atracado em Marseillan, Martine fez uma primeira exposição sobre o seu projeto e os problemas mais comuns da adoção. Viu-se, então, frente a um dilema inusitado. Ao lamentar que o grupo fosse pequeno – pois elas eram apenas três, mas esperava que colaborassem –, a irmã Dominique retrucou:

 ― Na verdade você não tem apenas três. Somos quatro: eu também sou uma filha adotiva.

Surpresa, Martine não conteve a exclamação:

― Ah! por isso o padre Justin quis incluí-la com tanto empenho!

― Eu também desejei participar...

― Não posso aceitá-la, irmã. Eu estaria me desviando da minha linha de pesquisa, infelizmente! O padre Justin cometeu um engano. A senhora não tem o perfil das outras três, é de uma outra classe, é uma religiosa.  

― E se eu lhe disser que, ainda mais que elas, eu merecia estar detida?

 Todas fitaram a freira, surpresas.

― Matei minha mãe adotiva. Embora ninguém queira me condenar, eu me condenei. Portanto, somos quatro condenadas!

― Irmã, a senhora não está falando sério! – disse Martine procurando manter-se calma.

Naquele momento, Gianluca tocou o sino no convés da proa, sinal de que deviam descer à sala de refeições para o almoço.

Antes de descer, Martine quis ligar para a orientadora, e dar notícia do início do projeto. Porém, a bateria do seu celular havia se esgotado. Quem se apossara dele fizera ligações durante toda a noite. Utilizou por empréstimo o de Gianluca.

Todas comeram com muita disposição, não apenas porque a reunião fora prolongada e cansativa, mas como um remédio para a emoção levantada com a revelação da irmã Dominique. Louise havia preparado um prato de ostras, um produto pelo qual era famoso o Lago de Thau.

Após o almoço, confiado em que não haveria enjôos porque não havia vento e as águas salgadas do lago pareciam quase um espelho, Gianluca movimentou o barco e deixaram Marseillan, navegando rumo ao sul, buscando a entrada do Canal du Midi, marcada pelo farol de Onglous (onglú). A irmã e as detentas reuniram-se no convés para apreciarem o cenário tipicamente mediterrâneo: céu límpido e azul, as águas cintilando ao sol e grandes bandos de flamingos. Havia muitos barcos atracados, com suas velas enroladas aos mastros aguardando o verão. Algumas lanchas brancas a motor passavam abrindo longas esteiras de espuma. Seus tripulantes saudavam as moças com buzina e acenos, o que elas retribuíam atirando beijos. Enquanto avançavam, Martine aproveitou o trajeto para pôr em ordem suas anotações em um arquivo, protegido por senha, em seu laptop.

Ao entrar no canal, Gianluca reduziu a velocidade do barco ao limite permitido, mas que seria suficiente para alcançar Agde (áde) no meio da tarde. Ao final da reserva natural de Bagnas (banhá) passaram a primeira eclusa das muitas a serem transpostas. As moças assistiram um pouco tensas as manobras de entrada do barco e o enchimento torrencial da câmara com as águas turvas do canal.

O cenário agora era outro. Em contraste com a natureza agreste do primeiro trecho, levantava-se uma linha de árvores que deitavam sombra e faziam a viagem muito mais agradável, sem impedir a vista, por entre elas, da paisagem verde, além, até o horizonte. Turistas temporões seguiam pelas margens de bicicleta ou a pé.

Na chegada em Agde, passada a eclusa aberta de La Prades (la práde), a irmã Dominique notou inquietação no olhar de Olga, quando o barco se aproximava do cais. Porém, olhando na mesma direção que ela, a irmã viu apenas carros estacionados com as frentes voltadas para o canal. Não teve tempo de observar mais, pois Martine chamava para a reunião e ela sabia que devia explicar para todas a confissão que fizera no encontro pela manhã.

*

 ― Minha mãe era uma solteirona milionária que adorava comer. Quando eu, já uma garotinha, a acompanhava às sorveterias, restaurantes e lanchonetes de luxo que freqüentávamos, ela era capaz de trocar a minha taça pela dela, quase vazia, se achava que o meu sorvete podia estar mais saboroso que o seu. Dizia rindo, enquanto comia com suas amigas, todas gordas e divertidas, que enganara o juiz de órfãos para me ganhar como filha adotiva. Não sei o que ela fez, mas contar essa proeza provocava gargalhadas em todas elas.

 ― E você criou inimizade com ela a ponto de....

 ― De querer vê-la morta? Em minha mente de criança, esta passou a ser uma idéia muito viva a partir de um incidente que me magoou e enfureceu. A professora perguntou à minha turma na sala de aula: “De onde vêm todos os bebês?” A primeira e mais aplicada aluna respondeu prontamente: “Da barriga da mamãe!” Achei que aquela era minha chance de derrotar a sabichona da classe e, erguendo a mão, eu disse bem alto: “Mas não todos!...” – Pondo-me de pé, continuei, desafiadora: “Minha mãe disse que eu não vim da barriga dela.” – Olhei a primeira aluna da classe deliciando-me com a surpresa que lhe causei, e todos os colegas também se voltaram para ela. Mas ela fulminou: “Então você é filha adotiva!”

A irmã suavisou a voz para explicar:

― Eu não sabia o que significava uma “filha adotiva”, mas o laivo de desprezo na sentença e o olhar que me deitou a sabichona diziam tudo: era algo desprezível. Eu havia ficado de pé para falar, e sentei-me amargurada. A amargura transformou-se em raiva. Ansiava para que acabasse a aula e minha mãe viesse me buscar para cobrar dela me haver ocultado que eu era “filha adotiva”.

A irmã continuou, imitando a voz da mãe:

― “Ora, Mininha, eu já lhe havia dito o essencial e, quanto aos detalhes, pretendia contar quando você fosse mais velha.” – De pé, no banco de trás, dei-lhe um murro na nuca. Ela voltou-se, me socou a testa com o cotovelo e berrou: – “Seus pais, seja lá quem forem, não podem prestar. Foram capazes de tê-la ilegitimamente e, pior ainda, de abandoná-la.” – Eu chorei o dia inteiro.

Martine respirou fundo, como para aliviar-se da emoção ao imaginar aquela cena. Henriette ponderou calmamente:

  ― Esse juízo de que os pais biológicos que doam os filhos não prestam é geral, mas está longe de ser verdadeiro. Se realmente não prestassem, teriam abortado e se livrado da criança antes dela nascer. Mas não fizeram isso. Quiseram que vivesse e tivesse aquilo que eles, por alguma razão – que pode até ter sido uma boa razão –, não lhe podiam dar.

  A freira disse:

― Quando a criança descobre que é adotada, ela sente como se tudo em sua vida perdesse o sentido. Perde a sua própria identidade, descobre que era falsa para si mesma. Ao mesmo tempo se ressente dos pais adotivos, por lhe terem escondido o fato. Quanto mais demoram a lhe revelar a verdade, maior o seu ressentimento. Uma meia verdade não é suficiente.

― E como você a matou? – perguntou Olga, tão friamente como um professor que pedisse a um aluno os detalhes técnicos de uma dissecação.

 ― Os parentes brincavam com ela dizendo que um dia ela ia morrer de tanto comer. E então eu passei a desejar que ela comesse muito e morresse logo. Lembro-me dela no clube aquele dia, tagarelando com duas amigas também volumosas e de pernas muito gordas, os maiôs parecendo mais faixas de trapos semi-ocultas pelas suas grossas pregas de gordura. Após terminar sua enorme taça de sorvete, tomou também a minha, igualmente grande, na qual eu mal havia tocado – e que deixei, bem de propósito, à sua frente –, e em seguida decidiu nadar. Então, alguma coisa lhe aconteceu; disseram que o coração não agüentou porque ela pulou na água com o estômago cheio. Ficou submersa, imóvel, estendida e voltada para baixo, seu vulto oscilando sobre o fundo de quadradinhos em azul-celeste, da piscina.

Martine meneou a cabeça e objetou, incrédula:

 ― Sua morte foi culpa de seu destempero; não foi a realização de seus planos infantis para matá-la. Francamente!... Não posso tomar um crime imaginário como evidência para minha tese, irmã Dominique.

Henriette quis saber:

 ― Você nunca procurou seus pais verdadeiros?

 ― Acho que nunca tive tempo para pensar neles. Mas, para mim, a paternidade espiritual do educador é o mais importante. A educação é que realmente põe a criança no mundo. Ela é a verdadeira paternidade tanto para os filhos biológicos como para os filhos adotivos.

Jorgette também estava curiosa:

― Quem passou a cuidar de você?

― Deserdaram-me. Seus parentes provaram que minha adoção fora ilegal e devolveram-me ao abrigo. Mas eu não queria ser adotada novamente. Lá permaneci até me tornar freira. Em minha adolescência decidi que essa era a maneira de pagar pelo meu crime: fazer o bem aos necessitados.

Martine pensou, desolada: precisava remover da mente de irmã Dominique aquele sentimento de culpa infundado. Mas isto teria que ser em outra oportunidade.

Louise veio lhes trazer biscoitos e refrescos.

Gianluca perguntou se podia prosseguir. Disse que, para o pernoite, seria melhor atracar o barco no cais em Vias (viá), um pouco acima no canal. Porém não pôde acionar o motor. A irmã Dominique pediu permissão para, utilizando a bicicleta de Louise, fazer uma rápida visita à catedral de Saint-Etiènne, uma fortaleza que haviam visto quase à beira do canal. Ao retornar, proclamou irritada que passaria a usar o véu de freira toda vez que deixasse o barco. Havia encontrado a catedral fechada e se aventurado a entrar na cidade, indo até a igreja de Santo André. No caminho, dois homens lhe haviam dirigido galanteios e propostas de namoro.

As moças riram e aplaudiram, mas a irmã reclamou, de mau humor:

 ― Nada que pudesse me deixar lisonjeada – disse. Eram dois sujeitos vestidos como palhaços, e suas bicicletas tinham discos multicoloridos presos nos aros das rodas.

Era muito tarde para que pudessem prosseguir viagem, devido ao horário de funcionamento das eclusas. Louise e Jorgette dispuseram a mesa para o jantar. Olga não teve as maneiras exuberantes da véspera; comeu em silêncio, parecia refletir sobre a solução de algum grave problema. Jorgette lhe pediu que contasse mais uma de suas anedotas, mas a resposta que teve foi um muxoxo de enfado.

 OLGA

Gianluca dirigia o barco com perícia, sem deixar de atender à curiosidade das moças. Na eclusa à saída de Agde, explicou-lhes, em correto francês, que aquela era a chamada eclusa Redonda, talvez a única no mundo com três comportas, de modo que os barcos vindos de Agde podiam seguir tanto para o leste como para o oeste. Passaram por Vias (viá) e mais adiante cruzaram a série de arcos com comportas corrediças, as chamadas “obras do Libron”, destinadas a manter o nível do canal enquanto durassem as cheias violentas do rio Libron. Seguiram-se a reserva natural de Roque Raute (roc rôte), à esquerda, – de onde saíram as pedras para a construção do canal – e, mais adiante, as vilas de Porte Cassafières (por kessefiér), Portiragnes (portirrânhes) e Ville Neuve (Vílenêv). Vencidas as várias eclusas desse trajeto, o barco passou frente à cidade industrial de Béziers (bêziê').

A vista da grande Catedral, plantada majestosamente no ponto mais alto de Béziers e sempre visível à distância, despertou na irmã Dominique o desejo de ir visitá-la. Mas, face ao que acontecera na véspera, Gianluca a dissuadiu. Poderia ser novamente molestada, mesmo que usasse seu véu de freira. Era meio-dia, as ruas estariam cheias de imigrantes entre os quais predominavam gatunos, traficantes de drogas e prostitutas. Além disso, a cidade era mal cuidada, e desagradável subir por suas vielas e escadarias, estreitas e sujas, até o alto onde estava a Catedral.

Passado o aqüeduto navegável, construído sobre arcos de pedra por cima do rio Orb na saída de Béziers, chegaram às eclusas de Fontserannes (Fontsserrâne). Gianluca sugeriu que as moças caminhassem pela via lateral  até o alto, enquanto ele manobrava pela escada de sete eclusas sucessivas que elevariam o Bel-Grosté até o novo nível do canal, mais de 20 metros acima.

Martine se protegia do sol com um pequeno chapéu de artesanato trentino; a irmã e as detentas com bonés de feltro colorido emprestados por Gianluca. Aquela curta caminhada a céu aberto, em meio a grupos de turistas que, da margem, acompanhavam curiosos a subida de suas lanchas e o funcionamento das comportas, foi o primeiro momento em que as internas sentiram o gosto da liberdade de que estavam privadas. Martine convidou-as para tomar um sorvete em um café-restaurante de onde podiam ver o movimento da gente, as manobras de elevação dos barcos, e a bela paisagem que se estendia para além, a começar da linha de altos pinheiros à margem da estrada, até o horizonte distante em que se via parte de Béziers. Mas a irmã Dominique ficou inquieta, notando que os dois palhaços fantasiados de Pierrô, que haviam tentado abordá-la no dia anterior, também subiam pela estrada ao longo das eclusas. Empurravam suas bicicletas, sem darem importância ao quanto pareciam cômicos aos turistas com que cruzavam pelo caminho.

Mas não foram os Pierrôs os únicos sujeitos estranhos a aparecer. Entrou no café-restaurante um chinês que, em meio a muitas mesuras, distribuía flores às mulheres presentes.

― Casa de Flores do China! China dá flores pra mulher bonita! – anunciava.

As moças aceitaram, encantadas, os ramalhetes. Aproximando-se de Olga, entregou-lhe o mais farto e belo de todos, e lhe disse quase ao ouvido:

― Aí tem telefone. – Olga recuou fugindo do seu péssimo hálito.

 ― Podem telefonar – disse o chinês dirigindo-se a todas. – China entrega flores qualquer lugar do canal.

Dito isto o oriental saiu apressado como se fugisse de uma imaginária fiscalização.

Para alívio da irmã Dominique, depois de mais de hora e meia de lenta passagem do barco de uma eclusa a outra, reembarcaram sem que as moças chegassem a notar os dois pierrôs.

*

No movimentado cais de Colombiers, (Colombiê) Vila para a qual era importante o negócio de aluguel de lanchas para passeios no Canal du Midi, Gianluca deteve o barco para o almoço e reabastecimento de combustível. Aquela tarde Martine escolheu ouvir a Olga. A jovem se mostrava inquieta e alheia ao grupo, e ela decidiu forçar sua integração e participação. Foi categórica:

 ― Vocês tiveram permissão para colaborar com minha pesquisa, e acredito que isto contribuirá para antecipar a liberdade condicional. Olga! se você mudou de idéia e não deseja mais participar do trabalho, seja franca e telefonarei para que venham buscá-la ainda hoje.

Martine não esperava chocar a loura altiva e arredia do modo que chocou. Ela empalideceu por um segundo, antes de protestar:

 ― Mas eu quero colaborar! Não me custa nada!

Após respirar fundo, como que para se refazer do susto, prosseguiu:

 ― Meus pais adotivos disseram que o temperamento é coisa hereditária. Eu era independente, rebelde, não ligava muito para as coisas, e isto com certeza era herança de meus pais biológicos. Se eles não prestavam, nada de melhor se poderia esperar de mim. Reclamavam que eu era causa permanente de discussão entre eles e assim, em lugar de ser um elo de união, como uma boa filha, eu estava, ao contrário, prestes a causar a separação do casal.

Olga fez nova pausa, em que acabou de se recompor. Martine se perguntava porque ela havia se mostrado tão assustada.

 ― Minha mãe dizia que, devido à minha origem, eu procurava amigas e amigos na classe baixa, entre gente que também não prestava e que, por essa razão, ela não podia convidar nenhum deles para meus aniversários. Uma vez disse que seu marido – meu pai adotivo – não seguira as recomendações dela, e escolhera mal a criança, e desde o início ela vira que não ia dar certo: “Uma criança de nariz arrebitado não podia prestar!”

 As colegas não puderam conter o riso, mas Olga prosseguiu no mesmo tom. Parecia estar de novo no inteiro comando de suas emoções.

 ― Para acabar com todo aquele inferno saí de casa e fui morar com meu namorado e, é claro – agora foi sua vez de sorrir –, eu precisava ajudá-lo a vender o pó. Portanto, o que sou nada tem a ver com o fato de ter sido adotada, mas sim com a minha genética.

― Esse é precisamente o tipo de tratamento que faz a criança assumir uma identidade negativa: dizer que ela já nasceu ruim – disse Martine. – Mas independência e rebeldia podem ser qualidades positivas, se você souber tirar o melhor dessa herança. Por que não procura fazer isto?

Irmã Dominique acrescentou:

 ― Deve ser bem mais fácil transformar um filho que é adotivo em um delinqüente que transformar um filho biológico em um criminoso, porque o pai adotivo tem muito mais armas para ferir.

 ― Porém, tudo depende da perícia em desconsiderar dos pais, e um pai biológico poderá ser tão ou mais eficiente nisto que um pai adotivo – contrapôs Martine. – As prisões estão cheias e lá quase ninguém é filho adotivo.

 ― Os pais adotivos dela é que deviam estar presos! – sentenciou Jorgette para o grupo, em apoio de Olga.

Ao fim da tarde, o barco passou por uma outra atração do canal: o pequeno túnel de Malpas (malpá). Gianluca explicou que havia ali três passagens sobrepostas. Logo abaixo do túnel navegável pelo qual passavam havia um outro túnel, mais longo, construído para a via férrea que ligava o litoral mediterrâneo a Bordeaux (bordô, ou aportuguesado: bordéus). Por baixo deste corria um terceiro túnel, construído por monges de um convento havia séculos, para escoar as águas do antigo pântano de Montady (mon-tadí), e eliminar os miasmas que causavam doenças na região.

O Bel-Grosté passaria a noite no cais em Poilhes (poále). Irmã Dominique, protegida tão-somente pelo poder do seu véu de freira para enfrentar os Pierrôs, pegou a bicicleta e foi à vila assistir a missa da tarde na igreja de Saint-Martin (san martan).

Para o jantar Gianluca preparou um saboroso primeiro prato, Canederli agli Spinaci. Ele sabia que era um dos pratos preferidos de Martine nas temporadas de sua adolescência em Madona de Campiglio.

Gianluca e Louise não deixavam de colocar um pouco de cuidado em todos os aspectos das refeições, principalmente em respeito a Martine, quem eles sabiam que estava habituada ao mais fino padrão de tratamento. Todas as manhãs bem cedo faziam compras de pães, presunto, ovos, queijo, para o café, e o que mais necessitassem para a dispensa de bordo. Junto ao cais, em cada parada, havia sempre padarias, sorveterias e pequenas mercearias e frutarias. As refeições, servidas ao modo de bufê, em bonita louça, cristais e valiosa baixela, constavam em geral de pasta, saladas, além de pratos suplementares como sopas, assados e queijos. Para si mesma e para as detentas, Martine permitia cerveja ou um pouco de vinho apenas ao jantar, mas nenhuma outra bebida alcoólica durante o passeio. Sempre havia alguma excelente sobremesa e um saboroso café ao final de cada refeição.

HENRIETTE

A igreja de Carpestang (carpestan), construída como uma fortaleza, dominava todos os edifícios no centro da cidade. Gianluca deteve o barco em um remanso aprazível e sombreado, não muito distante do cais. Na mesa do convés da popa as moças se dispuseram para mais uma conversa de grupo, antes do almoço. Henriette expôs o seu caso.

― Meus pais adotivos não tiveram filhos próprios. Já haviam adotado um menino e me adotaram para completar um casal. Meu pai dizia que ter filhos era necessário para dar sentido ao seu trabalho. Treinava-nos para que continuássemos a fazer crescer sempre mais os recursos da família. Devíamos fazer por merecer o que ele deixaria para nós.

 ― E a sua mãe – indagou Martine –, pensava do mesmo modo?

 ― Parece que sonhara com a adoção dos filhos, mas depois estranhara seu próprio projeto, e não se ajustava ao papel de mãe adotiva. Certa vez disse que, apesar da adoção ter sido legal, não conseguia se livrar da sensação de que havia roubado suas duas crianças. Acho que minha mãe tinha certa incapacidade de mostrar afeto, e também não acreditava em nosso amor. Uma vez ela disse, desalentada, que um bebê chora devido à falta do cheiro de sua mãe biológica, seu toque, o som de sua voz... Por falta desses sinais achava que nunca seria amada por nós. Por tudo isso a ligação com meus pais me parecia cada vez mais inútil e falsa.

 ― A incapacidade da mãe de desenvolver seu instinto materno é a maior causa de perturbação da criança, seja ela adotiva ou não – disse Martine em assumido tom profissional. – Mas este é um problema ainda mais grave para os filhos adotivos; eles precisam de uma aceitação autêntica para fundamento de sua identidade pessoal, em substituição ao fundamento biológico. – E como reagia seu irmão?

― Acho que algo parecido acontecia com meu irmão. Ele foi completar sua formação no exterior onde, apesar dos protestos da família, casou e passou a residir. Então me pareceu que sair eu também de casa seria muito cruel para nossos pais, e uma deslealdade para com eles que me tratavam com toda largueza. Pensei no perigo de que, ofendidos, eles me desamparassem. Aconselhada por minhas amigas, procurei um psicólogo mas ele me deixou ainda mais confusa. Disse que a origem dos meus problemas psicológicos estava no fato de que, como qualquer adolescente, eu desejava conquistar meu espaço social, porém via minha condição de adotiva como uma ameaça para minha aceitação. O resultado foi um colapso nervoso com uma variedade de sintomas físicos, e um longo tratamento sem resultado. Somente saí daquele estado quando me decidi a encontrar meus pais biológicos sem me preocupar com as conseqüências. Quando tomei essa decisão senti forte emoção ao pensar que encontrar meus pais significaria conhecer meus avós, tios, ou mesmo possíveis irmãos, irmãs e primos, e descobrir de repente uma grande família à qual eu pertenceria realmente.

  ― E seus pais não se opuseram? – perguntou Martine.

 ― A reação deles foi pior do que eu temia. – “Você não está interessada em encontrar uma família, está interessada em você mesma!”, lamentou minha mãe adotiva aos prantos. Ouvi meu pai comentar para minha mãe: “Se ela os descobre e cai nos braços deles, com que ficamos nós que tivemos tanto trabalho, despesas, angústias, para educá-la? Essas pessoas gozaram a vida livrando-se de cuidar dela e a terão de volta educada e rica, para tranqüilidade de suas consciências. Mesmo que desejássemos, não poderíamos deserdá-la.”

Martine interrompeu-a:

 ― No seu dossiê consta que você foi condenada por dirigir embriagada... Como isto aconteceu?

― Eu nunca tive a sensação de pertencer a alguém, e achava difícil fazer amigos ou me aproximar das pessoas, mas os rapazes me procuravam. Fui presa por dirigir bêbada e provocar um acidente, ao sair de uma festa, depois de romper com meu namorado. Mas foi cair tão fundo no poço que acabou me salvando. Conheci um policial que deseja me ajudar.

Como se adquirisse novo ânimo, Henriette abriu sobre a mesa uma pasta de cartolina onde tinha algumas fotografias.

― Ele é da polícia; é um especialista  em montar fisionomias de pessoas procuradas – continuou. – Este é o retrato que ele fez de como deve ser o rosto de meu pai. Este é o de minha mãe.

 ― E como ele fez isto? – indagou Olga, examinando os retratos. – Alguém os descreveu para ele?

― Não, mas ele sabe quais os traços dos pais costumam predominar em um filho e em uma filha. Por exemplo, nos meninos o nariz costuma ser o da mãe; nas meninas o do pai. A altura da testa tende a corresponder à da mãe, tanto nos meninos como nas meninas. Eu coloquei estas fotos na Internet. Talvez eles as vejam e poderão saber que eu desejo conhecê-los. Por conselho do meu amigo publiquei também um perfil biofísico: minhas alergias, meu tipo sanguíneo, a minha taxa de colesterol... Quando for possível, iremos publicar também o meu genoma.

Olga não se conteve:

― Desculpe, Henriette querida – disse rindo –, mas acho tudo isso falso. O que esse policial quer é apenas conquistar teu coração! As outras duas detentas também riam, e Henriette empalideceu, ofendida.

Ouviram o sino tocar no convés da proa, sinal de que Louise já havia posto o bufê do almoço. Martine se perguntou se não teria sido Henriette que furtara seu perfume. Afinal ela tinha um namorado para quem se perfumar, ao retornar à prisão. Ela teria pego o seu telefone para conversar com ele noite a dentro. Mas isto não parecia caber bem no perfil firme e honesto do caráter de Henriette – pensou.

Na parte da tarde, enquanto o Bel-Grosté prosseguia sua rota fixa pelo canal, as moças conversaram vivamente, sentadas no convés da popa. Enquanto trabalhava sobre suas anotações, Martine ouviu que pediam desculpas e encorajavam Henriette.

À noite Gianluca e Louise surpreenderam a todas com um convite para jantar em um restaurante na margem do canal, próximo a La Croisade ( la croasade ). Uma refeição em terra era parte do contrato! As tensões do dia se esvaíram com o acontecimento inesperado, e assegurar honestamente a Louise que sua comida era tão boa ou melhor que a do restaurante foi para todos um prazer complementar ao do próprio jantar.

JORGETTE

Em Le Somail (le somáie), o canal passava pelo centro da vila. Gianluca falou a Martine da livraria de livros antigos e do museu de chapéus da vila. Mas, como havia grande quantidade de embarcações para aluguel atravancando o porto, prosseguiram em busca de melhor local para amarração. Mesmo fora da alta estação, este era um dos lugares mais animados do trajeto.  

Atravessado o aqueduto navegável, alto de 20 metros sobre o rio Cesse – que também datava de fins do século XVII –, e passado ainda o centro vinícola de Ventenac (vantenac), Gianluca amarrou o Bel-Grosté no cais de Paraza (parazá), uma cidadezinha dominada por seu castelo. Após o almoço, convidou as moças para tomarem sorvete e café em terra firme, no Caffé du Port (cafê di por).

*

Aqueles quatro dias decorridos foram suficientes para Martine fazer um juízo da personalidade de Jorgette. Observou que a detenta havia se afeiçoado primeiro a ela, prontificando-se a acordá-la no horário todas as manhãs, e a pôr em ordem sua cabine. Depois se prendera a Gianluca: queria ajudá-lo nas manobras em cada eclusa, na amarração e no reabastecimento do barco. Em seguida se passara a Louise, que aceitava sua ajuda na cozinha com bom humor e evidente gratidão, tal como teria aceito a de uma passageira excêntrica quando o barco subia o canal lotado de turistas, no auge da temporada.

 ― Vamos chamar isso de “Desordem afetiva de apego”; depois encontrarei o termo técnico adequado – comentou Martine com a irmã Dominique. – Essa disfunção psíquica ocorre em crianças que vivem os primeiros anos sob os cuidados sucessivamente de várias pessoas. Nessa situação há uma busca indiscriminada de contacto sem nenhuma distinção ou preferência emocional: a criança não vê diferença entre uma pessoa e outra e seguirá  um estranho que sorri para ela.

― Ontem, ao jantar, me pareceu que ela agora está mais ligada à Olga – disse a irmã. – Ela se antecipava ao garçom para servi-la.

O diagnóstico feito permitiu a Martine prever que Jorgette fora adotada com certa idade.

*

À tarde estavam novamente todas sentadas à roda da mesa, sob o amplo guarda-sol, no convés da popa. Sem que nada lhe fosse perguntado, mas porque já conhecia o protocolo da pesquisa, a própria Jorgette iniciou seu depoimento. Seu sorriso meigo era encimado por um par de olhos estreitos, que fitavam agudamente, como se ela tivesse um plano para enfrentar com habilidade as perguntas da psicóloga. Agora sua sentença de prisão parecia ajustar-se melhor a sua pessoa – pensou Martine –, pois o juiz havia escrito: “personalidade dissimulada, oportunista, cleptomaníaca”, o que até ali lhe havia parecido algo descabido.

― Fui retirada do asilo aos seis anos de idade. Meu caso é, portanto, bastante diferente do de vocês três, que foram adotadas recém-nascidas. Penso que me achavam uma menina muito miúda e esquálida, eu não atraía o interesse das madames que apareciam na creche “para dar uma olhada nas crianças”. Poucas pessoas me notavam. Lembro-me de uma freirinha que me pegava pela mão e ensinou-me a desenhar, mas pouco depois ela foi transferida para um outro estabelecimento das religiosas. Senti tanto a sua falta! As outras irmãs estavam mais interessadas em como as meninas podiam cooperar na limpeza e nos serviços da casa. Vocês já perceberam como eu gosto de ajudar as pessoas. Aprendi no asilo que servir é o caminho para não sofrer! – finalizou, sorrindo com humildade, sem que seus olhos deixassem de ser vigilantes.

A irmã Dominique reagiu como se tivesse o dever de desculpar o tratamento que as irmãs davam às crianças no orfanato de Jorgette.

― Não acho que o modo como a criança é tratada no asilo deva se tornar uma lição de vida para ela – ponderou a irmã –, pois nisto as freiras podem cometer tantos erros, ou mais, quanto os pais adotivos ou os pais biológicos.

Jorgette não fez caso das palavras da irmã, e acrescentou:

 ― Ah! E havia também o padre que brincava de roda com as crianças no recreio ao anoitecer, após o Ângelus, depois de celebrar a missa e de jantar com as freiras. Era um orgulho para mim ajudar a noviça que o servia à mesa.

Martine notou, no semblante de Jorgette, que por uns instantes ela deixara cair a guarda, parecendo recordar-se de um pouco de felicidade a muito tempo esquecida. Aproveitou aquela brecha para indagar:

 ― Mas você foi adotada. Os seus pais adotivos, eles a amavam?

Jorgette olhou para ela embaraçada como se nunca tivesse pensado que podia ter sido amada por alguém. Hesitou em responder. Era evidentemente a passagem para um capítulo ainda menos atraente de suas memórias. Olhou para Olga, e recebendo de volta um sinal encorajador da amiga, prosseguiu:

― Diziam que me queriam bem, mas, tal como no asilo, nossa comunicação era um diálogo de ordens e determinações, e de respostas que não lhes interessavam. Haviam me adotado para fazer companhia a uma filha única, de minha idade, e eu devia seguir suas recomendações de como respeitar e tratar bem a minha “irmãzinha”. Apesar de ter apenas seis anos, eu tinha consciência da situação. Quando as freiras me entregaram ao casal, decidi que não deixaria escapar os dois pais que elas queriam me dar. Eu fazia o jogo da criança doce e afetuosa enquanto intimamente eu era muito independente e teimosa, e, acima de tudo, tinha secretamente minhas próprias regras. Quem eram eles para me dizer o que fazer e o que não fazer!...

 ― Consta de sua ficha que você responde por furto...

Jorgette ficou rubra. Não sabia até onde iam as informações obtidas por Martine a seu respeito. Explicou:

 ― Pelo Natal e em outras datas, quando a família se reunia em festa, eu era o objeto dos primos “legítimos” para tudo que eles, felizmente ainda ingênuos, desejassem. Minha completa submissão era o único modo de me integrar, de fazer parte. E quando queriam alguma coisa, esperavam que eu me dispusesse a roubar para eles. Adquiri habilidade em fazer isso... – disse com um riso nervoso.

 ― Aceitar roubar para se integrar é apenas uma questão de aprender esse caminho e não receber dos pais nenhuma orientação moral – disse irmã Dominique. Tocada pela fragilidade e pela sina infeliz de Jorgette, a freira sentiu por ela aquela intensa ternura que realizava a felicidade em sua vida religiosa. Naquele instante decidiu que cuidaria de modo especial da moça, quando retornasse ao seu trabalho na prisão.

*

O Bel-Grosté retomou sua marcha passando pela Vila de Roubiá (rubiá). O sol se punha, emprestando à paisagem um brilho dourado sobre o verde suave dos vinhedos até onde a vista alcançava, para além da linha de troncos finos das árvores à margem do canal. Como recortes animados contra o fundo iluminado, os dois Pierrôs passaram pedalando pelo antigo caminho das mulas que, em outras épocas, arrastavam os barcos pela água. Acenaram para as moças; elas responderam tibiamemte, das chaises-longues em que descansavam preguiçosamente no convés da popa.

Em Argens–Minervois (arjân minervoá), o pernoite era quase obrigatório. Depois de um longo trecho a um só nível, deviam se preparar para as muitas eclusas a vencer até o ponto final do trajeto. O porto era movimentado. Ainda na prolongada luminosidade do entardecer, jovens jogavam bola e velhas senhoras conversavam sentadas nos bancos de um parque próximo. Enquanto nos bares, sob os toldos coloridos, grupos terminavam a cerveja da tarde esperando o anoitecer, vários restaurantes ao longo do cais começavam a receber fregueses para jantar.

SUMIÇO DE OLGA

Aquele seria o último dia no barco. Martine tinha em mente realizar uma reunião final, na qual esperava poder dizer alguma coisa de útil a cada detenta, algo eficaz para que alterassem sua visão da adoção e pudessem ser felizes, quando retornassem a suas famílias. Porém, para sua surpresa e grande embaraço, ela e a irmã Dominique se deram conta, naquela manhã, do sumiço de Olga, Jorgette e Henriette. Apenas Henriette não havia levado consigo todos os seus pertences. As cabines das outras duas estavam vazias.

Gianluca havia ido em sua bicicleta fazer compras no mercado local. Ao retornar, encontrou Martine e a irmã Dominique transtornadas, e se dispôs prontamente a ajudá-las. Sugeriu que telefonassem primeiro para a polícia, e somente se as moças não fossem encontradas logo, ligassem para a diretora da prisão em Montpellier.

Um inspetor acompanhado de policiais compareceu prontamente ao barco para um breve interrogatório. Mas ninguém tinha nada a dizer que pudesse fornecer uma pista para a captura das fugitivas. Depois de anotar o nome e endereço de cada um, o inspetor afirmou que ele próprio comunicaria a ocorrência à direção da prisão em Montpellier, e avisou que todos poderiam ser convocados mais tarde como testemunhas. Gostaria que continuassem a rota pré-estabelecida; assim, se houvesse necessidade, saberia onde encontrá-los. Em seguida retirou-se com seus dois agentes.

Sem saber o que fazer, Martine aceitou o conselho de Gianluca de que continuassem e esperassem que a polícia fizesse o seu trabalho. Faltava-lhe coragem para voltar sem ter como explicar às autoridades a fuga das três moças que lhe foram confiadas. Preferia esperar que fossem localizadas e trazidas de volta ao barco. Poderiam prosseguir para Carcassonne, final da viagem, e onde, conforme previamente acertado, a van estaria aguardando na manhã seguinte para levar todas de volta a Marseillan, onde ela havia deixado seu carro.

Gianluca recolheu as amarras e acionou o motor, e se preparou para as manobras na próxima eclusa dupla de Pechlaurier (pec-lorriê).

Ninguém no Bel-Grosté conseguiu evitar o abatimento que o episódio lhes causava. Irmã Dominique, apoiada no cano de aço do parapeito, no convés da proa, mirava, desolada, o caminho marginal que ia, devagar, ficando para trás. Reconheceu, no seu íntimo, que se os dois palhaços aparecessem pedalando, naquele momento, levantariam seu ânimo: imaginou-se abraçando-os. Havia momentos assim, em que uma fome de amar, não importava a quem, assemelhava-se a uma dor aguda em seu peito. Isto punha em perigo a sua fé! Seria o amor a Deus apenas a adoração a um objeto ilusório, necessário ao homem para aplacar essa fome interior? Não, Ele não podia ser falso – pensou –, porque havia os milagres! Então pediu a Deus que Jorgette retornasse. 

Após aceitarem apenas uma xícara de café oferecida por Louise, Martine e a irmã Dominique foram reunir as coisas deixando suas sacolas quase prontas para o desembarque na manhã seguinte, ou a qualquer momento que fosse necessário. Foi quando a buzina de um carro, na estrada na margem esquerda do canal, chamou a atenção de Martine. Dirigiu-se ao convés da proa e logo se juntaram a ela Louise e a irmã Dominique. Viu que, do interior de um táxi, alguém acenava para o barco, e teve o pressentimento de que era uma das moças. Gianluca, que estava ao leme, fez uma leve reversão do motor para deter o barco e aproximá-lo da mureta de pedra do canal, e saiu da sua cabine para ver de que se tratava.

Num instante Henriette deixou correndo o táxi, e saltou para o barco. Jorgette pagou o motorista, correu e também saltou.

― Trouxe apenas uma das fujonas, disse Henriette, ofegante, porém com visível alegria por se encontrarem as duas a salvo.

― Mas o que aconteceu? – quis saber Martine sem perda de tempo.

Henriette, mal recuperado o fôlego, contou sua aventura.

 ― Acordei com uma discussão em voz abafada entre Olga e Jorgette, na cabine ao lado da minha, e percebi que as duas saiam; vi os seus vultos no corredor escuro, por trás dos reflexos da lanterna elétrica que usavam para fugir. Vesti-me rapidamente e ainda as alcancei na entrada de um beco que saía do cais. Tive cuidado para que vocês não acordassem porque queria dissuadi-las da fuga, mas de modo que vocês sequer soubessem da tentativa.

 ― Não percebi nada – disse Gianluca. – Mas pela manhã dei por falta da minha lanterna.

 ― Eu disse para as duas que a fuga haveria de piorar nossa situação, pois também eu acabava de me envolver. Olga disse que não tinha tempo a perder e continuou pelo beco escuro, mas Jorgette, eu a segurei pelo braço. Nós duas íamos retornar quando um carrinho da polícia entrou no beco, de luzes apagadas, e sem fazer ruído. Nos vimos obrigadas a seguir na mesma direção que Olga. Então a porta de um hotel se abriu para dar entrada a um casal e tivemos tempo de entrar junto com eles. O velho que abriu a porta lhes deu a chave de um quarto, mas, quando foi nossa vez, resmungou  – Henriette imitou o velho: “Por que vocês duas não vão fazer amor no parque ou debaixo da ponte do canal? Isto aqui é um hotel e não Sodoma e Gomorra.”

As duas riram relembrando a cena.

― Expliquei que nós só queríamos descansar, estávamos de viagem – disse Henriette. – E o velho: “Posso ver o que vocês têm nessa mochila? A policia costuma vir por aqui. Acaba de passar uma patrulha. Se tiverem droga, nada feito.” Vendo que éramos honestas pediu o pagamento. Eu não tinha um tostão e ia dar uma desculpa, mas Jorgette abriu a bolsa e deu-lhe os 10 Euros que ele pedia.

A alegria de Henriette por estar de volta e a sua cômica imitação da voz do velho hoteleiro já haviam desfeito o antagonismo sentido por Martine contra as fugitivas. Mas ainda havia um tom de censura em sua pergunta:

 ― E por que não retornaram logo pela manhã?

 ― Íamos fazer isto, mas quando chegamos ao cais, ainda na saída do beco, percebemos que havia policiais entrando no barco. Certamente eu pensei vocês ja teriam dito a eles que nós éramos fugitivas e eles nos tratariam como tal, mesmo que estivéssemos de volta ao barco. Corremos ao hotel para deixar a sacola, dizendo que a apanharíamos mais tarde. Em seguida entramos em um café. Se a polícia aparecesse, estávamos sem a sacola e poderíamos dizer que havíamos saído apenas para tomar café em terra. Restava esperar que os policiais saíssem e se distanciassem. Infelizmente, eles entraram no mesmo café em que estávamos para também tomar café e conversar. Vimos Gialuca retirar as amarras e acionar os motores. Jorgette achava que podíamos correr e pular no convés, mas resisti: eu vi que não daria tempo. De onde estavam eles nos veriam correr, e iriam em nosso encalço.  Quando finalmente acenderam seus cigarros e foram embora, pegamos um táxi e víemos a toda velocidade alcançar vocês. 

Martine ligou para a polícia e disse que as duas moças estavam a bordo, e que haviam ido tomar café em terra, e apenas Olga ainda não havia retornado.

― Como a senhora explica que os armários das cabines estavam limpos? – ironizou o inspetor ao telefone.

― O senhor se enganou. Os pertences de Henriette estavam no armário e creio que também os de Jorgette.

― Vou fingir que acredito, disse o policial bem humorado. – As coisas ficarão mais simples assim.

Embora grandemente aliviada, Martine ainda teria que explicar o sumiço de Olga. Não conseguia esconder seu nervosismo principalmente por que, na vez seguinte que ligou para a Delegacia de Minervois para saber se havia alguma novidade, disseram que o inspetor era da prefeitura de polícia de Paris e havia já retornado à Capital.

 ― Por que um inspetor teria vindo de Paris colher informações em um barco no Canal du Midi, na distante Minervois? – cismou Martine.

Indignada com a falta de informações, Martine pediu a Gianluca que no trajeto acostasse onde o canal passasse pelo centro da vila, e em La Redorte e Marseillette se dirigiu aos respectivos distritos policiais para pedir notícias sobre o paradeiro de Olga. Para maior irritação sua, os policiais tentavam ligações, mas se confundiam sobre qual departamento da polícia poderia estar encarregado do caso: a fugitiva se enquadraria em furto, entorpecentes, pessoas desaparecidas?

*

Bastante deprimida, Martine se lembrou dos sonhos da primeira noite no barco, em que se via em criança desobedecendo os pais para fazer o que julgavam perigoso para ela: ir à praça Righe comprar chocolate. Aquela pesquisa com detentas eles também pareciam não aprovar, temerosos dos riscos, embora não lhe tivessem negado os fundos necessários para seu projeto. Ela começava a se arrepender da idéia. Poderia ter encontrado outro tema ou, no mínimo, conduzido a pesquisa de modo diferente.

Na eclusa de L´Aiguille (laguile), o desfile das cômicas estátuas de madeira, dispostas à margem do canal pelo manobrista da comporta que era também um entalhador , e que ela havia admirado com suas amigas no verão passado, agora lhe pareciam demônios a rir do seu fracasso e a brindar sua estultice.

Depois do barco navegar cerca de 30 quilômetros, atravessando várias comportas – e ela com um simples sanduíche por almoço –, chegaram a Trèbes, para o último pernoite.

Como nos dias anteriores, a irmã Dominique pediu para ir à igreja rezar.  Retornou admirada com a altura das naves da grande catedral gótica da cidade.

Como que por força das orações da freira, um fato novo fez melhorar notavelmente o humor de todos no barco. Gianluca anunciou que teriam um jantar especial de despedida, preparado por ele e Louise, apesar de todos os contratempos. A refeição seria servida mais tarde, para que se vestissem para a ocasião.

Foi um elegante jantar, realizado à luz de velas, e se brindaram com champanhe. Henriette e a irmã Dominique, à vista do blazer azul com botões dourados de comandante de Gianluca; do vestido de seda de Louise; e do belo conjunto posto por Martine, lamentaram, com muito bom humor, não poderem se vestir melhor e não terem um calçado a mais que os tênis que usavam. Jorgette vestiu o que de melhor Henriette pode lhe emprestar.

 OS PIERRÔS

Após o café da manhã, Gianluca movimentou o barco até Carcassonne, cujas magníficas muralhas podiam ser vistas do canal, à distância.

Quando o barco atracou, dois agentes de Polícia uniformizados se aproximaram, pedalando suas bicicletas. Para espanto da irmã Dominique, eram os dois Pierrôs. Haviam trocado suas vestimentas por uniformes, mas não haviam removido o papel colorido que girava entre os aros das rodas das duas máquinas. Sorriram para a irmã, certos de que ela compreenderia e os desculparia – precisavam do disfarce. Depois, voltaram-se para Martine.

 ― A senhora nos foi muito útil, professora. Conseguimos deitar mão em um traficante foragido, usando a namorada dele como isca. Olga, na primeira oportunidade que teve, utilizou o celular da senhora e ligou para toda a França, até que conseguiu estabelecer contacto com ele e dizer-lhe onde estava e em quais portos o barco se deteria. O mafioso dirigiu pessoalmente um plano para resgatá-la. Subordinados seus providenciaram um minúsculo mas potente telefone celular vibrador, que lhe foi entregue escondido em um buquê de rosas, para que recebesse instruções. Nós pegamos os dois com a ajuda de agentes da polícia de Paris que há tempos estavam no encalço do bandido e organizaram o plano para sua captura.

 ― E por que não nos avisaram que Olga já estava presa? – indagou Martine com uma ponta de revolta.

O policial se desculpou:

 ― Somente poderíamos dar notícia da sua prisão depois que chegassem em segurança a Paris.

Martine se sentiu enganada; fora usada em uma trama, mas estava impedida de protestar por reconhecer que a polícia fizera um bom trabalho. E se perguntou amargurada se o padre Justin, que por uma boa causa infiltrara irmã Dominique no grupo, teria também alguma coisa a ver com o esquema que fora montado.

Voltando-se para Henriette e Jorgette, o policial prosseguiu.

 ― Aquela madrugada era nosso turno de acompanhar o barco pela margem do canal, e vimos Olga e Jorgette escaparem, seguidas pouco depois por Henriette. Acionamos os agentes para segui-las, mas, quando fecharam o cerco, só pegaram Olga, seu namorado e seus capangas.

 ― Ora, disse o outro Pierrô. – Está claro que essas duas aí nos enganaram e conseguiram voltar ao barco. Vocês são muito espertas, meninas. Digam uma coisa: não querem entrar para a polícia? Seriam as duas únicas pessoas inteligentes do nosso Departamento. Riram e se foram, pedalando suas bicicletas.

Haveria mais uma surpresa: antes de entrar na van, Jorgette, num gesto rápido, tirou de debaixo da saia uma bela faca dobrável, de fecho automático, e a ofereceu a Gianluca.

― Tome, para compensar a perda da lanterna – disse com um sorriso carinhoso.

Surpreso e ao mesmo tempo admirado com a beleza da peça, o comandante logo adivinhou a origem do presente.

― O dono era chinês... – disse examinando os caracteres gravados no cabo de madrepérola.

Jorgette sorriu. Sem nada dizer, voltou-se para Martine, seu rosto iluminado pela glória do seu poder naquilo que era a sua arte.

Henriette, Jorgette e Martine seguiram para Marseillan. A irmã Dominique dispensou o transporte. Não sabia bem o que faria, mas de qualquer modo desejava ficar a sós um pouco. Decidiu ir rezar na Basílica de São Nazário, e admirar seus belos vitrais, desta vez sem recear que algum Pierrô a perseguisse.

Rubem Queiroz Cobra

NOTA: Este conto está no livro de R. Q. Cobra AS FILHAS ADOTIVAS. Edições COBRA PAGES, Brasília, 2005, 136 p., ISBN 85-905519-1-1. Veja, por favor, a página Livros do Autor.

Aberta em 04/11/2004

 

Direitos reservados. Texto impresso original depositado na Biblioteca Nacional. Para citar este texto da Internet: Cobra, Rubem Q. - Filhas adotivas. COBRA PAGES: www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2004.
(“www.geocities.com/cobra_pages” é “Mirror Site” de COBRA.PAGES)

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Rubem Queiroz Cobra