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As enfeitadinhas do Lago Sul (*)

 

 

Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

 

 

Sartre – grande filosofo! – sentava-se a uma das mesas do Café de Flore para escrever seus artigos e livros, e receber as visitas agendadas de seus admiradores. O De Flore, na confluência do Boulevard Saint Gérmain-dês-Prés com a Rua Saint Benoit, é famoso até hoje devido a esse freguês ilustre.

Mas em época anterior a Sartre, já era costume dos intelectuais terem o seu ponto de encontro em torno à mesa de um Café.  

Na Rua Garrett, no Chiado, em Lisboa, na calçada – ou esplanada – do Café A Brasileira, há uma estátua em bronze de Fernando Pessoa sentado a uma mesa, à esquerda de quem chega. Naquele estabelecimento o poeta se encontrava com outros poetas e pensadores portugueses, para beber e conversar.

No Rossio, o Café Nicola foi o predileto dos intelectuais lisboetas por varias décadas.  Em suas mesas fazia ponto Manuel Maria Barbosa Du Bocage.

Essa coisa de ter um Café – e se possível uma mesa cativa – para encontrar colegas das letras e admiradores, foi um prazer cultivado também pelos poetas e escritores mineiros. No Café Estrela, que abria para a Rua da Bahia, nº 1005(**), na confluência desta com a Rua Goitacazes, Carlos Drumond de Andrade, Ciro dos Anjos, Pedro Nava, Emílio Moura, João Alphonsus e  Belmiro Braga se encontravam para comentar a vida belorizontina, fazer a declamação experimental de seus versos, e esboçar ilustrações e temas de suas futuras obras, grandes sucessos da literatura nacional. Em seu livro de memórias “Beira mar”, editado pela Nova Fronteira em 1985, Pedro Nava, já então morador no Rio, confessa:

 

“As mesas brancas me tentavam. Eu sacava do lápis e ia enchendo o mármore de meus esboços, tal qual contou Drummond em poema recente e magistral.

 

'Nava deixou, leve no mármore, mais um desenho.

É Wilde? É Priapo? Vem o garçom apaga o traço.”

 

Mas, as razões que levavam os citados autores a se encontrarem todas as tardes nos seus Cafés prediletos, eram bem diferentes dos motivos de Sartre. O celebre escritor e filosofo francês não dispunha de uma residência na qual pudesse trabalhar, receber amigos e conceder entrevistas. Sua morada, no Havre e em Paris, foi sempre um quarto alugado com vários lances de escadas para subir, em velhos prédios de fachadas encarvoadas, em ruas estreitas e secundarias, junto a docas e terminais ferroviários barulhentos. Essa a razão de fazer de sua mesa no Café de Flore o seu escritório. Por isso Sartre não conta!

 Hoje, as esquinas e cafés mudaram-se para a internet – criaram-se as redes de relacionamento virtual –, mas eu queria aquela experiência dos antigos. Então, excluído Sartre, teria eu que ombrear em importância e fama com os mineiros que citei,  para merecer o  direito a ter o meu Café? Eu não esperaria por isso! Nunca seria capaz de escrever, como eles, crônicas gentis e mansos sonetos para serem lidos com prazer até o fim. Mas, tinha o desejo de passar uma ou duas horas fora da minha biblioteca, trabalhando em um lugar com ruídos e movimento de pessoas. Em meu laptop eu podia consultar meus livros eletrônicos e todos os meus arquivos de trabalho. Acrescente-se o celular!

*

Logo descobri uma mesa à qual me sentar. Vou dizer onde – e isto não é propaganda.  

O Café Empada Brasil integra um projeto de Shopping Center com lojas de muito movimento, mas ao qual apenas recentemente se adicionou uma escada rolante. O conjunto reúne lotéricas, cafés, bancos e um supermercado. Vêem-se pessoas dos mais variados níveis sociais e culturais, estrangeiros e nacionais, caindo em categorias e tipos na medida que o observador inventa critérios para diferençá-los.  

Além de ser  um ponto estratégico, o Café é muito agradável – Patrícia e suas colegas se excedem em solicitude e competência no atendimento aos clientes.  Um pequeno armário de livros à disposição dos fregueses, junto a uma das mesas, criava um recanto discreto que me habituei a ocupar.

Assim, enquanto tomava um cappuccino lungo e revisava os meus textos, não pude deixar de observar algumas mulheres de presença bem marcante, que transitavam por ali. 

Meu interesse por elas surgiu depois de, casualmente, identificá-las nas revistas e jornais da cidade, onde comentavam suas festas, ou falavam da decoração exótica de suas casas e jardins. Eram para mim um tipo novo, de outra casta, que se revelava com a expansão da mídia dedicada à propaganda local e... a elas! Seguramente lhes faltavam a discrição, o envolvimento anônimo em assistência social, a religiosidade e a sobriedade do bom gosto, além de outras qualidades que representariam melhor a mulher do bairro! Não fosse esse contraste, desapareceria a razão de lhes dedicar estas páginas. 

Surpreendia-me que  até os objetos contidos em suas vistosas bolsas fossem exibidos nos semanários em cujas páginas desfilavam com vestidos de marca,   jóias caras, e saltos decimétricos. Apelidei-as  "As enfeitadinhas".

Vanguardeiras radicais da moda, compradoras compulsivas, não hesitavam em usar qualquer lançamento bizarro que os enfeitadores italianos e franceses – sapateiros, costureiros, boticários, bolseiros... – promovessem em Paris, Milão ou Nova York.  Quando entrevistadas sobre suas viagens, no seu "circuito gastronômico e cultural" estavam as suntuosas Disneylândias da moda – com filas, empurrões e cotoveladas  para entrar – na Bahnhofstrasse de Zurich,  na New Bond Street de Londres, na  Fifth Avenue em Nova York, na Avenue des Champs Elysées e Rue Saint Honoré em Paris ou na Montenapoleone, em Milão. Porque precisavam aparecer no suplemento dominical, elas promoviam festas, recepções, premiações, e saiam à cata de figuras às quais homenagear. Aparentemente consideravam os diplomatas o extrato mais nobre da sociedade e por isso estavam mais que prontas a promover homenagens às embaixatrizes que chegavam ou que estavam de volta aos seus países.

Tal orgia de exibicionismo espicaçou minha curiosidade. Pareciam ter uma incontrolável necessidade de se promoverem publicamente.

Não é, portanto, difícil de entender que, para algumas enfeitadinhas, até estacionar o carro de través, ocupando duas vagas, seja uma forma de brilhar, como baronesas da impunidade, principalmente se descem de uma majestosa saboneteira BMW, com pneus assustadores. "— Sabe com quem está falando? Sou mulher de Embaixador!" – vociferou uma delas para o gerente que se recusava a violar o regulamento bancário para atendê-la, na agência do Banco do Brasil do aeroporto, há alguns anos atrás.  Imagine o leitor o que podem sofrer porteiros de hotel, caixas de supermercado, empregadas domésticas!...

*

Deixados de lado os abusos, a elegância é um prazer que, bem dosado, cria aquilo que é fundamental no convívio social: a simpatia! Concordo que a enfeitação seja um vício – mas dá em que pensar. Pode ser um mal apenas relativo. Quanta gente na China não vive melhor porque as vaidosas enfeitadinhas compram milhões de bolsas de Louis Vuitton em Paris? Está muito claro que os arquitetos, decoradores, joalheiros, cabeleireiros, e toda gama de enfeitadores as adoram. Convidam-nas para desfiles, inaugurações e coquetéis de lançamento de suas coleções; em torno delas giram todos os seus negócios, e elas representam a sua salvação.

E não é somente na economia que, da vaidade, pode resultar algum bem. Graças a elas os funcionários estrangeiros que servem no Brasil levam o testemunho da generosidade e do calor do povo brasileiro, o que é muito bom. Então por quê criticá-las, quando forem apenas ingênuas – sem espinhos? Oui? – Au revoir mes belles!...
 

— Por favor, Patrícia! Você pode me trazer mais um café?
 

Rubem Queiroz Cobra
 


  (*) Ensaio de Crítica Social 

  (**)Número indicado por Eunice Vivacqua à pg. 23 do seu livro "Salão Vivacqua" (Ed. Fund. João Pinheiro,         B.Horizonte 1997).

 

  Página lançada em 31-10-2010.

Direitos reservados.
 Para citar este texto:
Cobra, Rubem Q. - As enfeitadinhas do Lago Sul. Site www.cobra.pages.nom.br, INTERNET, Brasília, 2010 
("www.geocities.com/cobra_pages" é "Mirror Site" de www.cobra.pages.nom.br).

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