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OS CINCO DESEJOS
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O velho pai, percebendo que estava muito mal e lhe restavam poucas horas, pediu à mãe para chamar os filhos, e reuni-los à sua volta. E lhes disse: ― É difícil para mim deixá-los quando mais precisam de um pai experiente e amigo. Hoje lamento a escolha que fiz de passar a maior parte dos anos da minha vida em viagens e aventuras, e de só muito tarde me casar. Mas tenho fé que ainda haverei de protegê-los. Na verdade, não posso saber o que me espera na outra vida, mas, apesar disso, quero ouvir de cada um qual o seu maior desejo. Quero ir sabendo como ajudá-los, para o caso que de lá eu possa fazer alguma coisa por vocês. Quanto à sua mãe, dela não preciso ouvir o que deseja porque já sei. Trabalharei para que tenha saúde e cuide de vocês ainda por muitos anos. Retiraram-se, a mãe e os filhos, para a sala contígua, tristes e perplexos. ― Não vejo como atender um pedido assim. Vão vocês primeiro, vou por último – disse um dos filhos. ― Atendam o que seu pai pede. Pode ser que seja sua última vontade – disse a mãe. ― Ele já teve crises piores do que essa, e se recuperou – disse um outro, o mais velho. ― Vou primeiro – disse a menina adolescente. – Ele está esperando e isso vai lhe causar stress e fazê-lo piorar. Que ele olhe por mim para que eu faça um bom casamento, não é difícil de pedir. ― Por ordem alfabética, como sempre fazemos – disse o que havia falado primeiro. O mais velho aprovou, porém disse: ― Vai o Tacão primeiro, enquanto a gente pensa melhor. A menina protestou imediatamente: ― Se é para seguir a ordem alfabética, desta vez não será de trás para a frente. Você é que deve ir primeiro, e não o Tacão – disse ela. O que atendia por aquele apelido estava sentado de cabeça baixa, silencioso até então. Ia dizer alguma coisa, mas a mãe se antecipou: ― Por favor, meninos! O mais velho abriu a porta do quarto vagarosamente e entrou relutante, mas de rosto grave, e todos sentiram um alívio, vendo que poderiam fazer o mesmo, cada um por sua vez. * Poucos meses depois da morte do pai, o mais velho passou em um concurso para um cobiçadíssimo posto no serviço público. Diligente e operoso, cuidava de suas obrigações com satisfação e respeito, e tinha imenso orgulho do cargo que ocupava. Poucos anos passados a menina, cujo pedido ao pai ela havia dado a conhecer previamente aos irmãos, casou com um diplomata que era todo carinho e atenções, e fez dela a rainha do seu “protocolo” íntimo e particular. O outro dos irmãos viu realizado seu sonho de ser um excelente médico. Só a vida do Tacão não mudava. Continuava a sair todas as noites, gostava de festas, avançava devagar nos estudos. Levou essa vida muito singela e despretensiosa, até que um dia os bem-sucedidos irmãos decidiram, como bons irmãos, reunir seus recursos para aplicá-los em conjunto e, um tanto irresolutos mas encorajados pelo cunhado diplomata, perguntaram a Tacão se aceitaria ajudá-los na administração dos negócios. Mesmo não sendo dito, parecia claro que o vigiariam bem de perto, porém com a vantagem de que não precisariam se desviar muito de seus próprios afazeres. A vida de todos então mudou para um ritmo mais urgente, mais rico. O dinheiro entrou por conta do inesperado tino comercial de Tacão. * Uma tarde, os três irmãos bem-sucedidos estavam sentados à sombra de uma bela árvore que o pai havia plantado no gramado perto da piscina, tomando um chá preparado pela mãe, e notaram uma lágrima de saudade no seu semblante triste. De repente se lembraram de que o pai prometera dar saúde à mãe por muitos anos, e ela de fato estava ali, prestimosa com os filhos, sempre bem disposta, e muito raramente se entristecia, como naquele momento. Silenciaram, enquanto cada um se lembrava do pedido que havia feito ao pai. Os três se deram conta de que, sem que percebessem o que acontecia, haviam sido atendidos cada um no seu desejo. ― Pensando bem – disse o mais velho –, parece que papai de fato nos protegeu, lá de cima, para onde foi... Até o Tacão ele iluminou, para ajudar a gente. Terminaram o chá em silêncio, observando com afeição o Tacão, que fazia um vigoroso exercício, dando longas e ruidosas braçadas na piscina. Depois que foram para suas casas, a mãe, retirando a louça, perguntou a Tacão: ― Filho, você não pediu nada a seu pai?... naquela vez que ele chamou cada um de vocês? ― Pedi – disse o filho. ― Então você foi o único que ele não atendeu... Você não foi atendido, verdade?... ― Fui o último a ser atendido, apenas isso. Estou satisfeito com meu trabalho e também com os rendimentos que tenho na administração de nossos negócios. ― Mas... isto... quem fez foram seus irmãos – disse a mãe em dúvida. ― Eu disse a meu pai que meus irmãos não confiavam em mim e isto me magoava muito. O que eu mais queria é que eles passassem a confiar, a me tratar como um igual, a acreditar em mim... A senhora vê? Aconteceu! Eles me confiaram a gestão de todos os seus bens e me tomaram por sócio. – Piscou para a mãe para vê-la sorrir e, sorrindo também, foi dar mais um mergulho na piscina. Rubem Queiroz Cobra NOTA: Este conto está no livro de R. Q. Cobra AS FILHAS ADOTIVAS. Edições COBRA PAGES, Brasília, 2005, 136 p. ISBN 85-905519-1-1. Veja, por favor, Livros do Autor. |
Aberta em 08/02/2003
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