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O BOM DA DROGA

Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

 

Paixão e vício são coisas muito parecidas. O Sr. Silva não é um viciado, mas está apaixonado. Como um drogado, mostra claros sinais de alienação e deslumbramento. O seu corpo todo responde à sua paixão e de sua mente tudo o mais ele exclui. Quase em êxtase, ele tem vontade de gritar com toda a força o nome de sua amada. A paixão o rejuvenesce e o faz sentir-se livre. Vê o mundo claro e límpido, como um desenho novo, porém seus olhos não se fixam em nenhum detalhe e o seu pensamento viaja acima das preocupações corriqueiras dos mortais. As pessoas lhe parecem ridículas, entregues que estão a afazeres ridículos e mesquinhos; as amizades com seus melhores amigos estão suspensas. Sorri enquanto dirige levando ao lado o estojo de um colar de pérolas e um buquê de rosas. Porém, outras vezes desconfia de que é vítima, de que é enganado, se apressa, voa mesmo, na maior aflição e ódio, devastado pelo ciúme. Seu comportamento então não tem medidas, nem seu juízo tem ouvidos: quer destruir, bater e matar.

Trata-se de uma paixão proibida. Como é uma pessoa de bem, o Sr. Silva está consciente do mal a que está entregue, mas este mal parece-lhe que afasta todos os outros males e torna-se a sua derradeira esperança de felicidade. Aos cinqüenta anos, pensa que voltar à sua antiga rotina de vida seria renunciar à felicidade que o amor ainda lhe poderia dar, para meter-se de vez em um caixão. Este pensamento lhe provoca lágrimas e essa renúncia ele não acha justa nem tem coragem de fazer. Mas não consegue divisar um futuro e a vida então lhe parece sem sentido.

Como é possível alguém cair em estado tão lamentável como aquele de um viciado em drogas, ou em tal descontrole como este em que se encontra o Sr. Silva?

Observando seus animais de estimação, o Prêmio Nobel Conrad Lorenz verificou: um pombo macho que não encontra a fêmea corteja um pombo empalhado, um pedaço de pano, ou até mesmo o canto vazio da sua gaiola. A corte não é a resposta a um estímulo, pois a fêmea não existe. O animal “objetiva” sobre alguma coisa a fêmea que lhe falta para executar um comportamento ao qual (a ciência descobriu depois) uma condição química interna o está obrigando.

Se for puxada uma caixa de sapatos à frente de cisnes recém-saídos do ovo, os bichinhos objetivam a caixa como sendo a mamãe cisne, e seguem-na em fila. É como a história do pequeno cisne órfão, que saiu atrás de uma pata: só depois de crescer para tornar-se a bela ave de sua espécie, deixou de ser o patinho feio, o mais feio e estranho no ninho dos patinhos. Libertou-se naturalmente. Desfazer prematuramente o equívoco do pequeno cisne teria significado sua morte, pois a objetivação que fez foi a sua salvação. E mesmo uma objetivação negativa é salvadora, como a raposa da fábula dizendo para si mesma “estas uvas estão verdes”, quando uvas maduras e apetitosas estavam fora de seu alcance. As objetivações são, portanto, formas que permitem ao animal corrigir o desequilíbrio na sua química interna mediante um certo comportamento que compensa uma frustração.

Do mesmo modo que o pombo, ou o patinho feio, ou a raposa, também o homem necessita manter o equilíbrio fisiológico que se traduz, em sua mente, em sentimentos de auto-estima e bem-estar. Na maioria das vezes, porém, encontra somente coisas que têm pouca adequação como fonte de emoções positivas, ou então adequação praticamente nenhuma. Então, em razão daquela necessidade de equilíbrio, ele também objetiva valores falsos sobre o que está ao seu alcance possuir para, em seguida, sentir-se realizado e feliz perseguindo o que ele próprio valorizou, e se exaspera se perde esse ponto de apoio e salvação que são as suas ilusões.

Vamos nos deter um pouco para ver passar Silvinete, uma morena com formas de violão, roupas coloridas coladas aos quadris e com um decote discreto mas fácil de ser transposto. Prejudicada por ter pernas um pouco arqueadas, vai equilibrando-se em seus sapatos de saltos desmedidamente altos, em passos bem medidos, apesar de um pouco apressados. A pele encardida queimada de sol, cabeleira acaju, lábios polpudos e vermelhos, maçãs do rosto salientes, argolas douradas nas orelhas, ela é a paixão do Sr. Silva.

Silvinete tivera uma infância sofrida. Recolhida desde cedo a um educandário de freiras do juizado de menores, sofreu por ser canhota e urinar na cama. Sua mãe, considerada uma mulher bonita, casou grávida no sertão do Nordeste e, indo para o Rio separada do marido, foi sustentada por amantes até casar-se com um funcionário, moço e atraente, que a tirou da favela e lhe conseguiu (pasmem!) emprego de enfermeira em um hospital público. Foram morar em um aprazível apartamento de apenas um quarto mas com uma sala ampla, no qual por vezes recebiam amigos para jogar cartas e pernoitar. Por insistência do marido, a mãe bígama tirou a filha do internato e a levou para o feliz novo lar, onde se fez para ela uma pequena divisão no quarto de dormir.

Quase ainda uma criança, Silvinete torna-se, pouco depois, o centro de sangrenta discórdia familiar: seu padrasto, denunciado à polícia por seduzi-la e sodomizá-la, antes de ser preso atentou a tiros contra sua mãe. Silvinete conheceu assim, muito cedo, seu poder de atração, de confundir e desunir, e que pessoas escolher para o seu jogo. Adulta, somava com habilidade a ambição e a plástica exuberante que copiava da mãe, com a personalidade aparentemente tímida, dissimulada e insinuante, treinada no internato de freiras.

Manobrando com grande intuição estas suas duas metades, e ocultando com êxito sua inclinação lésbica e pedofílica por meninas, Silvinete educou-se, casou, e tendo conseguido, graças à sua discreta atividade de seduzir, um diploma e razoável estabilidade financeira, desfez seu casamento para dedicar-se, com liberdade, a aventuras secretas tão repletas de perigo quanto fora o trágico romance de sua pré-adolescência.

Seus esquemas envolviam, no modo íntimo, seus objetos lésbicos, e na prática pública, seu intrincado jogo de provar seu poder de seduzir homens tão respeitáveis quanto a primeira impressão que tivera de seu padrasto. Insinuava-se, meiga e ingênua porém consciente da beleza herdada da mãe prostituta, junto a homens casados e sexualmente tímidos, bem situados financeiramente, aos quais oferecia um caso de amor, para eles, antes inimaginável. Fazia florir em suas vítimas a concupiscência, e as induzia ao comportamento concupiscente que merecia o castigo; castigava os apaixonados espoliando-os, expondo-os ao ridículo, fazendo-os de tolos, e confundindo e desunindo suas famílias. Descobriu que, paradoxalmente, negar-lhes o sexo os fazia ainda mais ternos e desejosos de seduzi-la, e passarem de seduzidos a ardentes sedutores.

Zombando secretamente de suas vítimas e ainda atormentando suas esposas com bilhetes e telefonemas anônimos, Silvinete chegava ao clímax de seu sentimento de poder quando sua vítima, perseguida pela família, sem entender o que acontecia, se retirava de cena ante a iminência do desmoronamento do próprio lar.

Sem objetivos, cansado dos problemas com a esposa e com os filhos, e entediado com seu trabalho e seu círculo social, o Sr. Silva tinha sua economia emocional operando no vermelho. Ele não havia descoberto como ser feliz fazendo felizes a mulher e os filhos, e estes, por sua vez, não lhe davam mais do que os obrigava o secreto temor de se verem desamparados. Agora, até mesmo essa rotina, de geral má vontade e mau humor de todos, estava ameaçada. Avisos anônimos começavam a alarmar a Sra. Silva, e os filhos estavam à beira do pânico. No entanto, para ele, o impasse parecia não existir. A esposa desagradava-o ainda mais com seu ciúme (que ele objetivava como infundado), enquanto achava que os filhos nada perceberiam do que se passava se a mulher calasse a boca e não o incomodasse (objetivava os filhos como alienados); sentia a família como um peso que lhe impedia de voar e gozar livremente sua felicidade.

Silvinete não fazia parte do contexto negativo em que vivia. Objetivá-la como bonita e pura, e tê-la ao seu lado, exibir-se como um conquistador refinado e romântico, empenhando-se em agradá-la, isto gerava nele intenso sentimento de plenitude e excelência, inundando-o de felicidade.

*

Toda informação enviada pelos sentidos à nossa mente recebe contribuições de registros anteriores, emergindo para a consciência como uma idéia já carregada de subjetividade. Nesse processo o sistema nervoso produz certas substâncias geradoras de sentimentos de bem estar ou de carência a ser suprida.

Buscamos alvos naturalmente adequados a gerar a fisiologia do bem estar mas, se não os encontramos, então acrescentamos significados positivos em cima dos que mais se aproximam dessa adequação; e nisto consistem nossas objetivações. Elas podem levar-nos aos mais altos ideais ou – se nos perdemos em banalidades – a resvalar para a paixão e o crime.

O Sr. Silva não sabia que um processo interno o levava a revestir uma hábil prostituta com qualidades que ele mesmo havia inventado. Não poderia acreditar que seus suspiros apaixonados fossem literalmente suspiros de proveta, e que os encantos de sua amada pudessem desaparecer prontamente mediante uma simples alteração na fisiologia nervosa em sua mente. Ignorante de tais particularidades, o Sr. Silva fica incapaz de encontrar um alvo alternativo, e não consegue mudar seu comportamento. Algumas vezes teve a sensação de que o contexto em que estava envolvido era irreal; buscou desprezar o objeto de sua paixão, mas isto não foi remédio e não conseguiu libertá-lo. Silvinete, por sua vez, não teve dúvidas de que ele, um homem de recursos, era a vítima perfeita para o seu jogo mortal.

Quando finalmente percebe o cálculo e a frieza de sua deusa, incapaz de fremir com os seus beijos, o Sr. Silva fica inteiramente desarvorado, completamente sem rumo. Revoltado contra quaisquer limites, usava livremente expressões obscenas, e se ligou a um grupo mais jovem, freqüentando locais onde se consumia não só álcool mas também drogas. Morou em um hotel onde chegou a praticar alguns furtos e para onde levava mulheres. No dia em que foi preso com um grupo de motoqueiros; sentiu-se esgotado e deslocado, e então, extenuado e inteiramente inerme, deixou-se resgatar pela família e voltou ao lar.

*

Embora não fosse um viciado em drogas, o Sr. Silva nos forneceu o perfil ideal e exato do viciado. Silvinete era tão falsa e também tão necessária para ele quanto os bares, as festas e os amigos são ilusões salvadoras para o viciado em seu grupo de dependentes e traficantes. Ela era, literalmente, a droga ilegal capaz de fazê-lo viver o sonho de felicidade de que necessitava para sobreviver, e por isso mesmo iria extorquir dele o seu custo em ouro como droga proibida, e ao final deixá-lo endividado e envergonhado.

Porém, é dos esquemas táticos de Silvinete que podemos extrair o que mais nos interessa: alguma coisa mais sobre as objetivações, justamente aquilo que pode curar uma paixão ou levar um viciado a abandonar seu vício.

No seu modo negativo de se objetivar, Silvinete era a menina feia, obrigada a carregar na cabeça, por ordem das freiras, o colchão molhado para secar ao sol, ou a menina seduzida, humilhada em um escândalo, e que teve o seu sexo examinado pela polícia, um trauma que fez dela uma mulher sexualmente insensível. Mas ao contrário, no seu modo positivo de se ver, era uma mulher astuta que auferia lucros dos dramas e crises que criava, e aplicava o dinheiro de modo a sentir-se inteligente e poderosa, esperta e capaz. Em cada episódio do seu jogo precisava sair vencedora e levar os adultos à iminência de se matarem, vingando-se, deste modo, da perseguição e da humilhação sofridas.

Também os seus jogos têm o mesmo efeito das drogas proibidas, que é fazer o indivíduo objetivar a si mesmo como excelente e potente, exagerar a confiança em suas aptidões, minimizar o perigo, ter a ilusão de docilidade e submissão do outro, e criar em si um sentimento temporariamente insuperável de gloriosa plenitude e excelência pessoal, ou, se elas lhe são negadas, lançá-lo em um universo de terror e no desespero do seu aniquilamento.

Aí está: se podemos nos voltar diretamente para o nosso Eu e pensar o que somos, então deve estar ao nosso alcance formular de nós mesmos um juízo otimista e poderoso, e – sem praticar jogos escusos – fazer crescer nossa auto-estima, propondo-nos alvos diferentes dos alvos simples e instintuais que herdamos dos animais.

Para ensinar isso ao viciado, um bom começo pode ser convencê-lo de sua importância e grandeza como ser humano à luz da filosofia e da religião, o que lhe dará sua primeira emoção positiva natural, frente ao valor da sua própria pessoa; e mostrar-lhe que o bom da droga está nas alegrias que nos dá quando a nossa natureza mesma a fornece, pela via do trabalho, do esporte, da cultura ou da fé, que nos engrandecem.

Rubem Queiroz Cobra

NOTA: Este conto está no livro de R. Q. Cobra AS FILHAS ADOTIVAS. Edições COBRA PAGES, Brasília, 2005, 136 p., ISBN 85-905519-1-1. Veja, por favor, a página Livros do Autor.
      As experiências de Lorenz são do seu On Aggression (Bantam B., N.Y., 1971). A química do sistema nervoso em parte é a descrita por Peter M. Milner em Psicologia Fisiológica (Ed. Cultrix, S. P.., 1970) e parte é ainda matéria publicada apenas em periódicos especializados. O mecanismo das objetivações está em Filosofia do Espírito (R. Q. Cobra, Ed. Valci, Brasília, 1997). As fábulas são de Andersen e La Fontaine, autores muito difundidos. O personagem "Sr. Silva" foi idealizado como um tipo adequado aos jogos de Silvinete, personagem calcada em Pan, do caso exemplo em Emotional Man and His Thematic Behavior (R. Q. Cobra, Ed. Thesaurus, Brasília, 1985). 

Aberta em 06/01/2000

Direitos reservados. Texto impresso original depositado na Biblioteca Nacional. Para citar este texto da Internet:
Cobra, Rubem Q. - O Bom da droga. COBRA PAGES: www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2000.
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