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O BIBLIOTECÁRIO
DA CORTE

Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

 

O sacerdote foi preso por ferir, com golpes de um castiçal, o homem que invadira o santuário. O fim trágico do incidente – com a morte do ferido –,  despertou a ira dos luteranos, e o alcaide prometeu ao povo que o assassino teria um castigo exemplar. Porém, apelando para uma Lei do Império, o bispo obteve do Duque a guarda do prisioneiro. Ficaria na torre da abadia dominicana até o seu julgamento. Queriam os luteranos que recebesse a pena máxima.

Esta era a situação. Apesar de ser um homem santo, o sacerdote estava detido em uma cela no convento dos dominicanos, aguardando julgamento.Os luteranos não levaram em conta que o invasor roubara os ouros da Igreja e havia ameaçado o sacerdote com sua espada.

Acontecia com frequência, desde o final da guerra (*), que católicos e protestantes ainda se batessem, e incidentes graves ainda aconteciam.

Sobre isto refletia o Abade, sentado em sua grande cadeira entalhada, diante de sua escrivaninha também ricamente trabalhada, com querubins alongados sustentando em cada canto seu grosso tampo, escuro e lustroso, com entalhes de cordas torcidas em suas bordas. Era preciso livrar o réu de ser julgado pelo tendencioso juiz da vila, amigo do alcaide, que haveria de encarcerá-lo pelo resto de sua vida.

Absolutamente incapaz de encontrar uma solução que livrasse o prisioneiro, decidiu escrever uma carta à Duquesa, pedindo-lhe justiça.  Suas Altezas, apesar de não serem católicas como a maioria dos seus súditos, eram pessoas boníssimas e se empenhavam pela tolerância religiosa no Ducado. O abade sabia que poderia contar com ela, se não lhe pedisse nada que levantasse suspeitas entre a maioria luterana. Para não atrair as atenções, não iria pessoalmente à Corte. Confiaria a carta ao noviço, que ia frequentemente à biblioteca do palácio.

A carta foi levada e, segundo afirmou o mensageiro, foi entregue à princesa, que prometeu entregá-la à Duquesa, sua mãe. Mas os dias iam passando e nada acontecia. Nenhuma resposta vinha do castelo.

Quando recebeu o aviso do meirinho, de que o alcaide viria pessoalmente, acompanhado de seus esbirros, buscar o prisioneiro, o abade empalideceu. Então lembrou-se do amável Bibliotecário do Castelo que, por estar incumbido de levantar a história do Ducado, muitas vezes viera até a Abadia consultar documentos do seu Arquivo. Ele havia adquirido grande respeito como matemático e filósofo, mantinha ampla troca de correspondência com religiosos, e trabalhava incansavelmente, com o apoio da Duquesa, pela reconciliação das seitas em uma única fé. O abade despachou novamente o noviço, com um bilhete solicitando ao sábio que levasse a sua súplica às autoridades supremas do condado. O noviço, confiante, deixou o convento a caminho da Herrenhausen, residência de verão da família ducal.

*

O noviço não estava preparado para a cena de horror que aconteceu quando passou pela porta do convento. Havia dado apenas alguns passos na estrada, quando viu dois cegos saírem da rua estreita que corria entre o muro do convento e as casas de pedra da vizinhança. Vestiam uma túnica negra com um capuz puxado sobre os olhos, deixava lhes o rosto oculto sob sua aba. Certamente ocultavam a lepra que os havia cegado.

Enquanto tateavam com seus bordões pela margem da estrada surgiu, pouco adiante, a pesada e lenta carrosse do prefeito, de cortinas vermelhas, puxada por dois cavalos negros de longas crinas, e conduzida por dois gendarmes da Vila. Os cegos, desorientados, sem saberem de que lado vinha o ruído das rodas do carro sobre o cascalho, atravessaram precipitadamente o caminho à frente do veículo, agitando seus bastões diante dos animais. Os cavalos relincharam assustados. Um dos cegos acertou uma bastonada no focinho de um deles, e o animal, erguendo-se sobre as patas traseiras, desequilibrou-se e arrastou o carro que rolou pelo precipício, do lado oposto ao muro do convento.  

Para o noviço, fora um homem rico, dono de uma carroce e com dois criados de librê, que haviam morrido. Apressado, afastou-se. Mas as vítimas foram o prefeito e seus esbirros!O prefeito não sobreviveu.
 

*

Pouco adiante, o dono de um cabriolé ofereceu transporte ao jovem, o que o levou ao Palácio em menos tempo. Encontrou a princesa conversando com o senhor Charbonnier, o jardineiro francês responsável por aquele mar de flores cultivadas pela Duquesa. Ela cumprimentou-o segurando suas mãos com intimidade e carinho. Os pequenos príncipes, irmãos mais novos da princesa, correram a abraçá-lo, e se atropelavam em contar as novidades do seu mundo infantil. Ele havia se tornado amigo da família pela admiração que despertaram em todos sua inteligência e sua espontaneidade. Vinha com frequência ao castelo, a pretexto de tomar por empréstimo livros de ciência moderna – no convento existiam somente as obras de Aristóteles.  A princesa adolescente conduziu-o à entrada do Palácio. Sabia que ele desejava falar com o bibliotecário, pois ela acreditava que este era sempre o motivo de suas visitas.  

No salão, a Duquesa bordava, na companhia de outras senhoras e de sua camareira. O jovem as cumprimentou e sua saudação foi respondida com simpatia pelas mulheres. Ele seguiu a princesa pelo amplo corredor decorado com pesados quadros de moldura dourada.

— Meu pai recebeu a carta do Senhor Abade, disse ela em voz baixa, confidencial, enquanto abria a alta e larga porta da biblioteca. O Bibliotecário dava instruções a Johann Georg, seu auxiliar. Mas, ao ver o visitante, veio ao encontro dos jovens. Ela ainda teve tempo de dizer ao frei:

— Meu pai e minha mãe conferenciaram com o Bibliotecário sobre o que fazer. – e retirou-se.

 

O noviço entregou o bilhete ao mestre e aguardou que lesse, pois o abade insistira em que tentasse levar uma resposta.

Porém, o Bibliotecário – e ilustre matemático – nada disse. Parecia não dar maior importância à questão. Desenrolou sobre a grande mesa o mapa do ducado, e fez um gesto para que o jovem se aproximasse. O noviço já não acreditava que o prisioneiro ainda pudesse ser salvo.

— Vê esses moinhos? – perguntou o bibliotecário, apontando para as miniaturas espalhadas pelo mapa. A cidade estava representada por algumas casinhas, o Palácio desenhado como um pequeno castelo, os caminhos eram riscos paralelos coloridos, e pequenas figuras de homens cavando o solo com picaretas representavam as minas de salitre. Anjos bochechudos sopravam indicando a direção predominante dos ventos no Ducado.

Notando o constrangimento do jovem, ansioso pela resposta que devia levar ao Abade, disse:

— Fique para o chá. Tenho certeza de que a Senhora Duquesa terá prazer com a sua companhia. É provável que ela tenha a resposta que deseja levar ao Abade. O secretário Georg avisará Sua Alteza.

Neste momento ouviu-se o estrépito de cavalos e das rodas de uma carruagem nas pedras que pavimentavam o pátio. O Bibliotecário calou-se por um instante, atento à conversa que podia ouvir, vinda de fora, entre o cocheiro e o mordomo, na escadaria do palácio. Porém, logo voltou sua atenção para o que agora mais lhe interessava: os seus moinhos.

— Muitos perderam a vida no interior dos túneis de nossas minas, devido a inundações repentinas, quando uma escavação encontra uma passagem de água entre as rochas, disse-ele. Esses moinhos movimentarão bombas e a água será drenada permitindo a continuação dos trabalhos.

O bibliotecário apontou para um traço contínuo no mapa.

— Todos os veios de minério desaparecem quando chegam nesta linha, disse ele. Agora se, com as informações deste mapa, onde procurar a outra ponta de cada veio e reativar as minas! Se estou certo, isto significará uma grande fortuna para o Ducado.

Um criado veio avisá-los de que a Duquesa os esperava para o Chá. No salão, uma grande surpresa paralisou o noviço. À mesa sentava-se também o prisioneiro da torre.
 

*

— Não pude ver  seus rostos nem suas mãos, pois estavam encapuzados, enluvados,  e se cobriam com longas capas pretas. Suas vozes, não me lembrava tê-las ouvido antes. Puxaram-me escada abaixo e me levaram a correr por um túnel estreito até a porta d convento que se abria para um beco. Uma carruagem aguardava. Meteram-me nela. Meus sequestradores disseram que a Senhora Duquesa pedia...

A duquesa interrompeu-o.

— Sim, Padre. Há algumas semanas recebemos uma carta do Abade, denunciando a injustiça que lhe faziam. Por isso mandei buscá-lo na torre, para lhe confiar uma missão, que lhe dará a oportunidade de se livrar do perigo que corre. Quero que seja o portador de uma correspondência para a Inglaterra. É coisa muito importante e secreta. E o senhor deverá viajar incógnito – disse a Duquesa enquanto a criada lhe servia o chá. — Pense em um disfarce... Poderá partir assim que o tempo melhorar. Espere dois ou três dias; está chovendo muito no Norte

Com um pedido de desculpas, desta vez foi o chefe da milícia ducal que envergava seu uniforme de gala com suas medalhas douradas – que interrompeu a Duquesa. Seu ajudante de ordens havia se aproximado, prestado continência a ele e à Duquesa, e lhe passara uma comunicação.

 — Lamento lhes dar esta má notícia, disse ele. Acabo de saber que o Alcaide perdeu a vida em um acidente. Os cavalos de sua carrosse se assustaram com dois cegos encapuzados que passaram à sua frente, e o veículo e os animais rolaram pela ribanceira fronteira aos dominicanos. Os luteranos estão irados e dizem que o padre armou uma trama para escapar e essa morte é mais um crime pelo qual ele deve pagar. Se Sua Alteza me permite, sugiro que o sacerdote parta imediatamente, ou este incidente se tornará causa de instabilidade política no ducado. Meus homens lhe darão segurança até a fronteira.

A Duquesa acatou a sugestão do General fazendo com a cabeça um sinal de assentimento.

Darei ordens para que preparem um baú com as coisas que vai precisar para a viagem.Mas, continuemos o nosso chá — disse ela. Por favor, sirvam-se. "Achar um novo alcaide seria tarefa do Duque" – pensou a Duquesa, com um suspiro de alívio.

 

 A hora do chá era sempre a melhor parte do dia para a Duquesa. Naqueles encontros em todas as tardes de verão, sentia intenso prazer em discutir, com o sábio bibliotecário, temas profundos da filosofia e das escrituras. Embora não fosse católica, respirava a tolerância sempre presente no Palácio, herança do seu cunhado católico, que preservara as igrejas e conventos do Ducado.Por isso encomendara ao General o resgate do padre, atendendo ao pedido insistente de sua filha, e de modo algum condenava a amizade da moça com o jovem noviço franciscano.

 A duquesa lembrou-se da falta que sentira do Bibliotecário, quanto ele fizera sua última viagem a Londres . Para se consolar, ela havia lido um pouco sobre os judeus holandeses, e estava ansiosa por comentar com ele essas leituras. Aprendera que não apenas os católicos e os protestantes castigavam herges, com tortura e morte, mas também os judeus. Havia lido um pouco sobre o  filosofo holandês Baruch Spinoza, um humilde fabricante de lentes judeu, e  Uriel da Costa,  martirizado por seu próprio povo em razão de suas idéias.

Como que saindo de um devaneio, a Duquesa indagou ao Bibliotecário:

— É verdade que Uriel da Costa foi excomungado e condenado a ser pisado por toda a congregação, à porta da Sinagoga, por discordar dos rabinos, e suicidou com um tiro de pistola, de raiva e vergonha?

—Sim. É verdade – disse o Bibliotecário.

— Afinal,  o que ele fez de tão grave, para merecer isto? - perguntou.

Apanhado um pouco de surpresa pela pergunta, o Bibliotecário procurou lembrar-se:

— Ele era um espírito brilhante, mas alguns de seus pensamentos contrariavam o Torah. O mesmo poderia ter acontecido com o filósofo Espinosa, que também foi excomungado. Espinosa escreveu que Deus é a substância espiritual contraposta ao universo físico, como as duas faces de uma mesma moeda; não é um Deus voltado para o homem, como acreditam os judeus e os cristãos. Este foi seu grande erro. Na opinião dos rabinos, ele criou limitações arbitrárias à natureza e às preocupações de Deus. Conversei com ele sobre isso, quando o visitei em Haia.

O Padre, apesar de ainda sob influência das emoções pelas quais passara, fez um esforço para situar-se no debate:

— A grandeza de Deus, espelhada na grandeza do Universo material,é apenas um dos seus predicados. Trata-se, portanto, de uma concepção incompleta Dele, dizer que se revela na ordem e na grandeza do Universo, pois outros predicados igualmente infinitos também lhe são necessários. Sua infinita sabedoria e sua misericórdia, por exemplo, não têm nada a ver com o Universo. Nossa vontade é fraca. Sem a Sua assistência e ajuda nós não poderíamos praticar o bem – disse o fugitivo.

— Sim – concordou prontamente o Bibliotecário. — Mas fiquei surpreso ao ouvir das figuras mais gradas da filosofia e das matemáticas, em Paris, que concordavam secretamente com Spinoza e, apesar de continuarem a orar publicamente em Notre Dame, na Madeleine e em Montmartre, não acreditavam nem um pouco que Deus os escutasse, ou que Deus fosse outra coisa que não o próprio Universo. "Deus é o Universo", disseram-me.

— Eu não me assusto com isto, de que o Universo seja infinitamente grande, embora me dê arrepios. – disse a Duquesa. — Porém, quanto às pequenas coisas... – uma pedrinha no meu jardim, por exemplo, ela sempre pode ser dividida em partes menores.  Assim como existe o infinitamente grande, existe também o infinitamente pequeno? Há um infinito nessa divisão também?

— É certo que sim, Senhora Duquesa – respondeu o Bibliotecário  de forma respeitosa. E acrescentou: — Tudo que existe no Universo – e não apenas em seu jardim, Senhora Duquesa –, é infinitamente divisível. Mas está fora do alcance do homem proceder a tal divisão. Não temos como partir o que já é muito pequeno para nós. Com que instrumento faríamos isto? A única possibilidade de uma coisa tão pequena se partir seria chocando-se violentamente com outra coisa tão pequena quanto ela. Como um grão de areia que, levado por um vento fortíssimo, encontrasse outro grão de areia e, com o choque violento, ambos se partissem em grãos menores, invisíveis para nós. Um grão de areia, porém,  está muito longe de ser uma coisa infinitamente pequena.— Porém existem duas coisas infinitamente pequenas que todos conhecemos, disse.

Todos o fitaram um pouco divertidos, como se esperassem por algum dito jocoso. Sentado ao lado da princesinha, o jovem frei tinha os olhos brilhando de curiosidade e expectativa.

— O presente! – proclamou o Bibliotecário – porque o presente é uma fração infinitamente pequena do tempo, e não podemos dividi-lo.

A Duquesa duvidou:

—O presente não é um dia inteiro? Acontecem tantas coisas no presente!..

—O presente é nossa consciência do nosso existir. É uma descontinuidade, uma divisão indiscernível do tempo entre o passado e o futuro. Podemos dividir o passado em fatos, e o futuro em hipóteses, mas não há como dividir o momento presente

—É verdade – concordou mansamente o sacerdote.

—Sabemos que estamos no momento presente, então nossa consciência é pontual, ou seja, é também infinitamente pequena, inteiramente espiritual.

—Mesmo uma consciência pesada, como a do secretário Georg? Ele escondeu todas as minhas bonecas! – perguntou ousadamente a princesinha, provocando risos.

—Foi ordem que lhe dei– disse a Duquesa sem perder o bom humor. Você já passou da idade de brincar com bonecas. Porém, falar da divisão do tempo lembrou-lhe que o prisioneiro resgatado devia partir antes que anoitecesse. Mandou descer a bagagem que lhe fora preparada e o Bibliotecário lhe entregou uma pasta de documentos. O sol se punha quando a moderna e leve Berline, puxada por quatro cavalos a galope, o levou velozmente rumo ao Norte.

Rubem Queiroz Cobra

 

(**) Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), entre católicos e luteranos.

Página lançada em 14-02-2010

Aberta em 08/02/2003

Direitos reservados. Texto impresso original depositado na Biblioteca Nacional.
Para citar este texto da Internet:
Cobra, Rubem Q. - Os cinco desejos. COBRA PAGES: www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2003.
("Geocities.com/cobra_pages" é "Mirror Site" de COBRA.PAGES)

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