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O Bibliotecário da Corte

Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

  
  "Eu creio no Deus de Spinoza, que se revela na harmonia ordenada do que existe, não em um Deus que se preocupa com o destino e as ações dos seres humanos". Albert Einstein.(*)

 


 

O sacerdote foi preso por ferir, com golpes de castiçal, um homem que invadira o santuário. O fim trágico do incidente – com a morte do ferido –,  despertou a ira dos luteranos, e o alcaide prometeu ao povo que o padre assassino teria um castigo exemplar. Apelando, porém, para uma Lei do Império, o bispo obteve do Duque a guarda do prisioneiro. Ficaria na torre da abadia dominicana até que o seu julgamento. Queriam os luteranos que recebesse a pena máxima.

Esta era a situação.  Não levaram em conta que o invasor roubara os ouros da Igreja e havia ameaçado o sacerdote com sua espada. Acontecia com frequência, desde o final da guerra (**), que católicos e protestantes ainda se batessem, e incidentes graves ainda aconteciam.

Sobre isto refletia o Abade, sentado em sua grande cadeira entalhada, diante de sua escrivaninha também ricamente trabalhada, com querubins alongados sustentando em cada canto seu grosso tampo, escuro e lustroso, com entalhes de cordas torcidas em suas bordas. Era preciso livrar o réu de ser julgado pelo tendencioso juiz da vila, amigo do alcaide, que haveria de encarcerá-lo pelo resto de sua vida.

Absolutamente incapaz de encontrar uma solução que livrasse o prisioneiro, decidiu escrever uma carta à Duquesa – pessoa boníssima! – pedindo-lhe justiça. O abade sabia que poderia contar com ela, se não lhe pedisse nada que levantasse suspeitas entre a maioria luterana. Decidiu que, para não atrair as atenções, não iria pessoalmente à Corte. Confiaria a carta ao noviço, discípulo do Bibliotecário, que ia frequentemente à biblioteca do palácio.

A carta foi levada e, segundo afirmou o mensageiro, foi entregue à princesa, que prometeu entregá-la à Duquesa, sua mãe.Mas os dias iam passando e nada acontecia. Nenhuma resposta vinha do castelo.

 Quando recebeu o aviso do meirinho, de que o alcaide viria pessoalmente, acompanhado de seus esbirros, buscar o prisioneiro, o abade empalideceu. Então lembrou-se do amável Bibliotecário do Castelo que, por estar incumbido de levantar a história do Ducado, muitas vezes viera até a Abadia consultar documentos do seu Arquivo. Ele havia adquirido grande respeito como matemático e filósofo, mantinha ampla troca de correspondência com religiosos, e trabalhava incansavelmente, com o apoio da Duquesa, pela reconciliação das seitas em uma única fé. O abade despachou novamente o noviço, com um bilhete solicitando ao sábio que levasse a sua súplica às autoridades supremas do condado

*

O noviço não estava preparado para a cena de horror que aconteceu quando passou pela porta do convento. Havia dado apenas alguns passos na estrada, quando viu dois cegos saírem de um beco e ganheram a estrada à sua frente. Vestiam uma túnica negra e tinham o rosto coberto. Certamente ocultavam a lepra que os havia cegado.

Enquanto tateavam com seus bordões pela margem da estrada, surgiu pouco adiante a pesada e lenta carrosse do prefeito, de cortinas vermelhas, puxada por dois cavalos de longas crinas, e conduzida por dois gendarmes da Vila. Desorientados, sem saberem de que lado vinha o ruído das rodas do carro sobre o cascalho, os cegos atravessaram precipitadamente o caminho à frente do veículo, agitando seus bastões diante dos animais. Os cavalos relincharam assustados. Um dos cegos acertou uma bastonada no focinho de um deles, e o animal, erguendo-se sobre as patas traseiras, desequilibrou-se e arrastou o carro que rolou pelo precipício, do lado oposto ao muro do convento.

Para o noviço, fora um homem rico, dono de uma carroce e com dois criados de librê, que havia morrido. Apressado, afastou-se. Mas as vítimas foram o prefeito e seus esbirros!
 

*

Pouco adiante, o dono de um cabriolé ofereceu transporte ao jovem, o que o levou ao Palácio em menos tempo. Encontrou a princesa conversando com o senhor Charbonnier, o jardineiro francês responsável por aquele mar de flores, cultivadas pela Duquesa. Os pequenos príncipes, irmãos mais novos da princesa, correram a abraçá-lo, e se atropelavam em contar as novidades do seu mundo infantil.

A princesa adolescente cumprimentou-o segurando suas mãos com intimidade e carinho. Ele havia se tornado amigo da família pela admiração que despertaram em todos sua inteligência e sua espontaneidade. Vinha com frequência ao castelo, a pretexto de tomar por empréstimo livros de ciência moderna – no convento existiam somente as obras de Aristóteles.

No salão, a Duquesa bordava, na companhia de outras senhoras e de sua camareira. O jovem as cumprimentou e sua saudação foi respondida com simpatia pelas mulheres. Ele seguiu a princesa pelo amplo corredor decorado com pesados quadros de moldura dourada.

— Meu pai recebeu a carta do Senhor Abade, disse ela em voz baixa, enquanto abria a alta e larga porta da biblioteca. O Bibliotecário dava instruções a Johann Georg, seu auxiliar, tão bom e amável quanto ele. Mas, ao ver os visitantes, deixou-o e veio ao encontro dos jovens. Ela ainda teve tempo de dizer ao frei:

— Meu pai e minha mãe conferenciaram com o Bibliotecário sobre o que fazer. – e retirou-se.

O noviço entregou o bilhete ao mestre e aguardou que lesse, pois o abade insistira em que tentasse levar uma resposta.

Porém, o Bibliotecário – e ilustre matemático – nada disse. Parecia não dar maior importância à questão. Desenrolou sobre a grande mesa o mapa do ducado, e fez um gesto para que o jovem se aproximasse.

— Vê esses moinhos? – perguntou, apontando para as miniaturas espalhadas pelo mapa. A cidade estava representada por algumas casinhas, o Palácio desenhado como um pequeno castelo, os caminhos eram riscos paralelos coloridos, e pequenas figuras de homens cavando o solo com picaretas representavam as minas de salitre. Anjos bochechudos sopravam indicando a direção predominante dos ventos no Ducado.

Notando o constrangimento do jovem, ansioso pela resposta que devia levar ao Abade, disse:

— Fique para o chá. Tenho certeza de que a Senhora Duquesa terá prazer com a sua companhia. É provável que ela tenha a resposta que deseja levar ao Abade. O secretário Georg avisará Sua Alteza.

Neste momento ouviu-se o estrépito de cavalos e das rodas de uma carruagem nas pedras que pavimentavam o pátio. O Bibliotecário calou-se por um instante, atento à conversa que podia ouvir, vinda de fora, entre o cocheiro e o mordomo, na escadaria do palácio. Porém, logo voltou sua atenção para o que agora mais lhe interessava: os seus moinhos.

— Muitos perderam a vida no interior dos túneis de nossas minas, devido a inundações repentinas, quando uma escavação encontra uma passagem de água entre as rochas, disse-ele. Esses moinhos movimentarão bombas e a água será drenada permitindo a continuação dos trabalhos.

Um criado veio avisá-los de que a Duquesa os esperava para o Chá. No salão, uma grande surpresa paralisou o noviço. À mesa sentava-se também o prisioneiro da torre.
 

*

— Nada pude ver dos seus rostos, pois estavam encapuzados, e se cobriam com longas capas pretas. Suas vozes, não me lembrava tê-las ouvido antes. Puxaram-me escada abaixo e me levaram a correr por um túnel estreito que abria para um beco. Uma carruagem aguardava. Meteram-me nela e os homens que a conduziam disseram-me que a Senhora Duquesa pedia a minha presença no Palácio.

Sim, Padre. Há algumas semanas recebemos uma carta do Abade, denunciando a injustiça que lhe faziam. Por isso mandei buscá-lo na torre, para lhe confiar uma missão. Quero que seja o portador de uma correspondência para a Inglaterra. É coisa muito importante e secreta. E o senhor deverá viajar incógnito – disse a Duquesa enquanto a criada lhe servia o chá. — Pense em um disfarce.

 — Lamento lhes dar esta má notícia, disse o Bibliotecário. Acabo de saber que o Alcaide perdeu a vida em um acidente. Os cavalos de sua carrosse se assustaram com dois cegos encapuzados, e o veículo e os animais rolaram pela ribanceira fronteira aos dominicanos.

O noviço voltou-se admirado para o Bibliotecário. Compreendeu – pelo que foi dito à mesa e pelo que tinha visto na estrada– que fora montado um plano inteligente para salvar o prisioneiro. Na Inglaterra o Padre estaria a salvo! A morte do alcaide fora, com certeza, acidental. Acreditava que os sequestradores pretendiam apenas entrar na torre do convento disfarçados de cegos e resgatar o sacerdote.

Achar um novo alcaide seria tarefa do seu marido – pensou a Duquesa. Preferiu mudar de assunto. A hora do chá era sempre a melhor parte do dia para ela. Amava provocar o sábio Bibliotecário a respeito de fatos históricos e das Escrituras. Lembrou-se da falta que ele lhe fizera em sua última viagem. Para se consolar, ela havia lido um pouco dos escritos de Spinoza, um humilde fabricante de lentes judeu, martirizado por seu próprio povo em razão de suas idéias. Disse, como que saindo de um devaneio:

— Afinal, por quê toda a congregação pisou sobre o corpo de Spinoza, na porta da Sinagoga? O que ele fez de tão grave, para merecer isto? - perguntou.

Apanhado um pouco de surpresa pela pergunta, o Bibliotecário explicou:

— Ele escreveu que Deus  era o Universo com suas estrelas e planetas, e não um  Pai preocupado com o destino do ser humano, como acreditavam os judeus e os cristãos. Na opinião dos rabinos, ele criou limitações arbitrárias à natureza e às preocupações de Deus. Conversei com ele sobre isso, quando o visitei em Haia.

O Padre, apesar de ainda assustado com tudo que lhe acontecera, fez um esforço para situar-se no debate:

— O Universo, apesar da sua grandeza infinita, não pode ser confundido com Deus. Os homens estão no Universo e também seriam divinos! Isto faria Deus imperfeito, uma vez que os homens são imperfeitos – afirmou.

— Eu não me assusto com isto, de que o Universo seja infinitamente grande, embora me dê arrepios. – disse a Duquesa. — Mas, uma pedrinha no meu jardim, por exemplo, pode ser dividida em partes cada vez menores. Assim como existe o infinitamente grande, existe também o infinitamente pequeno?

— É certo que sim, Senhora Duquesa – respondeu o Bibliotecário  de forma respeitosa. E crescentou:

—Este é outro importante argumento contra Spinoza. Deus não pode ser dividido.  Ele é Uno por inteiro, perfeito, e distingue-se do Universo porque este, ainda que seja infinitamente grande, é construído de coisas divisíveis e, por essa razão, sujeito a muita imperfeição.

Um pouco hesitante, o Bibliotecário mudou o rumo da conversa:

— Tudo que existe no Universo – e não apenas em seu jardim, Senhora Duquesa –, é infinitamente divisível. Mas está fora do alcance do homem proceder a tal divisão. Tudo que está contido em uma coisa infinitamente grande é, necessariamente, infinitamente pequena. Porém existem duas coisas infinitamente pequenas e indivisíveis que todos nós conhecemos.

Todos o fitaram um pouco divertidos, como se esperassem por algum dito jocoso. Sentado ao lado da princesinha, o jovem frei tinha os olhos brilhando de curiosidade e expectativa.

— O presente! – disse o Bibliotecário – porque o presente é uma fração infinitamente pequena do tempo, e não podemos dividi-lo.

A Duquesa duvidou:

— O presente não é um dia inteiro? Acontecem tantas coisas no presente!...

— O presente é nosso conhecimento do que está  entre o passado – nosso conhecimento do que passou –, e o futuro – nosso conhecimento do que poderá vir. É uma descontinuidade, uma divisão indiscernível do tempo. Podemos dividir o passado em fatos, e o futuro em hipóteses, mas não há como dividir o momento presente.

— É verdade – concordou mansamente o sacerdote.

— E também a nossa consciência! – acrescentou o Bibliotecário. — Sabemos que estamos no presente, então nossa consciência é pontual, ou seja, é também infinitamente pequena, inteiramente espiritual, e só desse modo ela cabe no tempo presente.

— Mesmo uma consciência pesada, como a do secretário Georg? Ele escondeu todas as minhas bonecas! – perguntou ousadamente a princesinha, provocando risos.

— Foi ordem minha – disse a Duquesa sem perder o bom humor. Porém, falar da divisão do tempo lembrou-lhe que o prisioneiro resgatado devia partir antes que anoitecesse. Mandou descer a bagagem que lhe fora preparada e o Bibliotecário lhe entregou uma pasta de documentos. O sol se punha quando a moderna e leve berline, puxada por quatro cavalos a galope, o levou velozmente rumo ao Norte.

Rubem Queiroz Cobra

 

(*)  "I believe in Spinoza's God who reveals himself in the orderly harmony of what exists, not in a God who concerns himself with the fates and actions of human beings". Albert Einstein, citado por Victor J. Stenger em Has Science Found God? – citação transcrita no site www.spaceandmotion.com)

(**) Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), entre católicos e luteranos.

Página lançada em 14-02-2010.

Direitos reservados.
 Para citar este texto:
Cobra, Rubem Q. - O Bibliotecário da Corte. Site www.cobra.pages.nom.br, INTERNET, Brasília, 2010. 
("www.geocities.com/cobra_pages" é "Mirror Site" de www.cobra.pages.nom.br).

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